Matriz de São Félix de Cantalice - Buíque

História da Paróquia de São Félix de Cantalice

A história de Buíque é um quebra-cabeças e parte de suas peças permanecem escondidas no baú de recordações ou nas memórias de alguns moradores.

É sabido que o grande marco que determinou o desenvolvimento da cidade começa com a construção da capela de São Félix de Cantalice. Não diferente de várias outras cidades do interior pernambucano. A capela é o epicentro da expansão de Buíque.

Processo de doação do patrimônio de São Félix de Cantalice

Em 19 de novembro de 1716, os penedenses: capitão-comandante Félix Paes de Azevedo e seu irmão, Nicácio Pereira Falcão, compram a Fazenda Lagoa pelo valor de 400 mil réis, a Maria de Matos da Costa, viúva do tenente Pedro Aranha Pacheco. Em 1752 – 36 anos depois – com o falecimento de Nicácio, Félix Paes de Azevedo, entrega a metade das terras à viúva do irmão e aos sobrinhos.

Em 27 de março de 1753, as terras pertencentes a Félix Paes de Azevedo, são divididas em duas partes: a primeira é doada aos sobrinhos: Julião de Matos Garcês e Francisca dos Prazeres. A segunda parte passa a ser patrimônio da Capela de São Félix de Cantalice (que estava para ser erigida) tendo o tamanho de mil braças quadradas.

Construção da capela

São Félix de Cantalice foi um frade pertencente à Ordem dos Capuchinhos e havia sido canonizado há pouco tempo. Em 1716, Félix Paes de Azevedo já almejava a construção da capela desde quando adquiri com o irmão, as terras da fazenda da lagoa. Porém, a capela começou a ser erigida em 1753.

Diz a memória popular que Félix tinha um santo de pequeno porte que ficava numa cabana de oração, e em algum momento o santo desapareceu da cabana, reaparecendo num tronco de árvore por várias vezes. Contudo, esse relato é o mesmo abordado para justificar a construção de capelas de outras cidades pernambucanas. A atribuição de uma razão milagrosa vinculada a um determinado local, fortalecia o envolvimento da população no engajamento aos princípios doutrinários do catolicismo. A coincidência milagrosa ocorreu em Cimbres, Brejo da Madre de Deus e noutras cidades antigas. Sendo assim, o sumiço do santo está mais para uma lenda urbana do que para uma manifestação milagrosa.

Em 27 de maio de 1754, o patrimônio da igreja é ampliado com a doação de seis mil réis em terras da Fazenda Mocó, no qual metade dela pertencia a Gonçalo Pereira de Moraes. Em junho do mesmo ano a capela encontrava-se em fase de acabamento. Sua porta de entrada era voltada para o sul, de frente para a lagoa que nomeava a fazenda.

Em 1763, a capela deixa de ser jurisdição de Garanhuns para ser de Cimbres, por consequência da instalação na Vila de Cimbres em 1762. Em 1863, Cimbres passa a ser jurisdição da Matriz de Santo Antônio, em Garanhuns e consequentemente, Buíque também.

Freguesia de São Félix de Buíque

A capela de São Félix de Cantalice deixou de ser filial de Garanhuns apenas em 11 de dezembro de 1792, quando passa a ser freguesia de São Félix de Buique por meio de alvará régio. A capela foi canonicamente erigida por Don Frei Diogo de Jesus Joaquim – Bispo de Olinda.

Após demolição, surge uma nova igreja com a frente voltada para o leste (nascente do sol).

A nova Matriz

Sessenta anos após sua elevação à categoria de paróquia, a matriz encontrava-se em estado de ruínas. Isso devido a delicada estrutura feita em madeira, barro e pedras. Em 1853, o Frei Caetano de Messina – frade italiano que passou por algumas cidades do Nordeste, veio até Buíque e reconhecendo que sua arquitetura não era digna de uma paróquia, mobilizou a população local para a construção de uma nova matriz. As famílias eram convocadas para ajudar na obra e se revezavam em dias alternados.

O Frei criou também a primeira campanha de desarmamento na cidade, promovendo um enterro simbólico da violência que havia na região. Assim, nos alicerces da nova Matriz foram enterradas várias facas, armas de fogo e munições.

Em Buíque, ergue a matriz dedicada a São Félix de Cantalice e realiza uma cerimônia um tanto quanto teatral: centenas de facas, punhais, balas, pistolas e outras armas são enterradas nos alicerces da igreja, simbolizando, assim, a paz e a harmonia entre os habitantes do local“. (ACERVO CEPE PE)

Em 10 de março de 1907 foi erigida a Via Sacra na Matriz de São Félix de Cantalice e em 1925 a igreja teve um novo acréscimo, a partir do altar mor (onde está localizada a imagem de São Félix), no qual até a porta principal correspondia a área da igreja, sendo ampliada, posteriormente – do altar para o fundo que servia como Sacristia e a Capela do Santíssimo. Três portas constituíam a entrada da igreja – as laterais foram fechadas pelo padre Otacílio Pimenta permanecendo apenas a porta.

A imagem primitiva de São Félix de Cantalice fora enviada para o Recife, para ser restaurada, porém não retornou. Assim, uma imagem de grande porte do santo foi doada pelo fazendeiro local: Luís Tenório Cavalcanti, cuja alcunha era Major Lulu de Aquino. Esta é a imagem que se encontra na matriz.

À igreja cabia a responsabilidade de proceder os registros de batismo dos paroquianos, registros que, no Brasil, até 1889, eram os únicos documentos para certificar a existência de um indivíduo, fazendo as vezes de registro civil de nascimento. Imprescindível para garantir aposentadorias. Era igualmente responsável pelo registro dos títulos de terras a partir da promulgação da Lei de número 601 de 18 de setembro de 1850, que regulamentou a situação jurídica da propriedade. Também os alistamentos militares eram feitos nas paróquias, e muitas delas manifestavam “repugnância” pelo serviço que veio substituir o sistema de alistamentos. O registro da propriedade de animais também era de responsabilidade dos párocos. (ASSIS, Virgínia Maria Almoêdo de. ACIOLY, Vera Lúcia Costa. Buíque: Uma história preservada. 2004.)

As imagens da Matriz

A presença de várias imagens numa capela ou matriz, não ocorre simplesmente por ornamentação. Elas caracterizam devoções praticadas em determinada localidade. Os frades capuchinhos, tinham devoção à Nossa Senhora da Penha. A santa do Carneiro, teria sido doada quando da construção da capela e doação da terra pelo antigo proprietário daquela região – a santa foi trazida da capital a pé, por escravos. Há também, outra capela com devoção à Nossa Senhora da Penha, no Riachão.

Nossa Senhora do Rosário é padroeira de Penedo, terra natal de Félix Paes de Azevedo, fundador de Buíque. E, havendo construído a capela devotada à São Félix de Cantalice, trouxe também a devoção da santa de sua cidade natal para a mesma capela. A imagem de Nossa Senhora do Rosário é a mais antiga entre as demais na matriz de São Félix de Cantalice, sendo esta do século XVIII.

A imagem mais antiga não é a de São Félix, porque como expresso anteriormente, a imagem primitiva fora enviada para restauração na capital pernambucana entre as décadas de 1950 e 60, não retornando para a matriz. A imagem atual foi doada em 1925 por Luís Tenório Cavalcanti de Albuquerque (Lulu de Aquino).

O retorno as portas laterais

Após 95 anos do fechamento das antigas portas da matriz em janeiro de 2020 – o Padre Antônio Ferreira da Silva, no final de sua passagem pela paróquia, inicia a obra de redefinição das duas janelas laterais que passam a ser novamente, portas.

Página sugerida: Cronologia dos Padres da Matriz de São Félix de Cantalice


Referências:

  • Depoimento do Padre e reitor da Diocese de Pesqueira Antônio Ferreira da Silva (2020).
  • Livreto da Festa de São Félix de Cantalice, Buíque-PE s/d.
  • ASSIS, Virgínia Maria Almoêdo de. ACIOLI, Vera Lúcia Costa. Buíque Uma História Preservada. Poligraf. Recife. 2004.
  • AZEVEDO, Cidinaldo Buíque de Araújo. Campos do Buíque Suas Terras, Sua Gente. Recife. 1991.
  • ACERVO CEPE PE. Acervo memorial de impressos, manuscritos e fotográficos em formato digital. Coletânea do Suplemento Cultural (1986-2006). Companhia Editora de Pernambuco. p. 28, out/nov, 1997. Disponível em: http://www.acervocepe.com.br/acervo/coletanea-do-suplemento-cultural–1986-2006- Acessado em: 23 abril 2021.
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Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

Um comentário

  1. Muito interessante , saudades do meu tempo de escola. Amava quando a professora dava aula falando da nossa querida cidadezinha.
    Minha eterna gratidão.

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