Félix Honório de Farias

Félix Honório de Farias e as terras de Cabral

No dia 21 de abril de 1973, Félix Honório de Farias – um senhor de 73 anos que residia com sua esposa Maria Franquilina da Conceição (70 anos) no sítio Imbaúba, em Buíque-PE; compareceu à Delegacia Regional do Trabalho em Arcoverde para reclamar a posse de terras que segundo ele, eram suas por direito de herança.

Félix, munido de certos documentos, comprovava ser bisneto do Almirante Pedro Álvares Cabral – o descobridor do Brasil. Sendo sua família materna de origem indígena. Acompanhado do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arcoverde, apresentou-se ao delegado Romildo Alves Leite, afirmando ser herdeiro de 500 mil hectares de terra. O delegado e seu substituto – o médico Pedro Nicolau da Mota Pinheiro, acharam que aquilo não passava de uma brincadeira. Porém, foram surpreendidos, pois os documentos validavam as palavras daquele senhor.

As terras haviam passado por seis gerações até chegar na do Félix. Contudo, nunca foram demarcadas pelos antigos proprietários. Talvez pelo fato de se perderem de vista, afinal as terras cortavam cinco Estados nordestinos: Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe.

O povoado de São Félix tinha como sede o território que passou a ser chamado Buíque; era termo da Vila de Cimbres, comarca de Pernambuco. As terras do povoado teriam sido herdadas por Brás Aranha de Farias (filho nascido fora do casamento) do Almirante Pedro Álvares de Cabral com a indígena: Catarina Aranha, natural duma tribo de Salvador-BA.

Félix, apresentou um recibo de quitação de impostos ao IBRA (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária) e afirmou que “não abriria mão de seus direitos”. O caso foi encaminhado ao Ministro do Trabalho – Júlio Barata, para análise.

“Minhas terras foram tomadas pelos prefeitos de Buíque que, com seus capangas, não permitiam que me instalasse no que herdei”.

As terras haviam sido doadas há 452 anos. No cartório de Buíque constava o registro de doação. No entanto, em Pesqueira, no livro de número III, a herança foi registrada como pertencente à família daquele que a reclamava.

Félix tinha uma vida simples e passava por privações. Tinha 2 filhos casados, 42 netos e 5 bisnetos. Era filho de Antônio Neves de Farias; neto de José Honório de Bezerra; bisneto de Antônio Manuel da Silva e tetraneto de “Brazidas Aranha de Farias“. O herdeiro de 73 anos foi um dos netos da sexta geração do descobridor do Brasil.

O caso seguiu até a Delegacia do Trabalho de Recife. Contudo, o pedido de Félix não pode ser atendido.

Todos somos herdeiros de Cabral. Essa história de que muitas das nossas terras pertencem a um pretenso herdeiro do navegador é cabulação. O Sr. Félix Honório de Farias tem 73 anos, devemos por isso compreendê-lo, sem levar a mal suas intenções”.

Assim disse o poeta e escritor Mauro Mota – presidente da Academia Pernambucana de Letras, sobre a notícia publicada no jornal DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Concordando com o procedimento realizado pelo delegado Romildo Leite, em solicitar a documentação para encaminhamento ao ministro Júlio Barata, mesmo sabendo que de nada adiantaria, tendo em vista que as terras foram doadas há 473 anos.

A escritora Dulce Chacon, também manifestou-se dizendo que se houvessem herdeiros de terras brasileiras, estes seriam indígenas e que não levou a sério a conversa do Sr. Félix com o delegado do DT:

“Daqui há pouco, começarão a aparecer os herdeiros de Cristóvão Colombo. Américo Vespúcio, etc., inclusive os descendentes dos donatários, que virão reclamar as capitanias”.

A polêmica acerca do pedido acaba quando o historiador Costa Porto, afirma ser o pedido do Sr. Félix Honório uma piada, pelo simples fato de as terras reclamadas terem sido doadas por Cabral em 1521. Data em que o próprio já havia falecido, o que torna o pedido ilegítimo.

Cabral faleceu em 1520. É possível que a doação tenha ocorrido posteriormente, diante de comprovada filiação do Brazidas. Mas, não se conhece os procedimentos adotados e diante de tantos períodos marcados nos idos do descobrimento, passando pela monarquia e a república, o tempo tratou de enterrar os trâmites do passado. O fato é que Félix nunca haveria de recuperar as terras doadas por seu tetravô.


Referências:

  • Diario de Pernambuco, primeiro caderno. publicado em: quarta-feira, 21 de nov. de 1973.
  • Diario de Pernambuco, primeiro caderno. publicado em: quinta-feira, 22 de nov. de 1973.
  • Diario de Pernambuco, 3ª página. publicado em: quinta-feira, 29 de nov. de 1973.
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Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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