Lampião e seu bando por Buíque, segundo os jornais

A história do cangaço impressiona e atrai pessoas de várias idades. Um dos nomes de referência que permeia a imaginação das pessoas certamente é o de Virgulino Ferreira da Silva – conhecido pelo vulgo “Lampião”. Um apelido associado a um objeto simples feito com lata, que armazenava certa quantidade de querosene, servindo de combustível para alimentar uma pequena chama que à noite iluminava o interior das casas em tons alaranjados.

Contudo, não há nenhum romancismo no apelido dado pelo cangaceiro Cabeleira ao mais famoso dos cangaceiros. Lampião atirava freneticamente numa velocidade tão incrível que o cano de sua arma esquentava ao ponto de ficar como brasa. A cor levemente alaranjada lembrava a luz de um lampião.

O homem que com seu bando assombrava as vilas do Nordeste brasileiro, conhecia bem as veredas buiquenses. Algumas destas, atalhadas por certos membros do bando, filhos de Buíque – a exemplo de Candeeiro e Jararaca. A história do cangaço nasce como uma espécie de movimento de indignação contra o coronelismo e o abandono em que o povo se encontrava. Mas, que foi perdendo sua essência, desfigurando os verdadeiros ideais por trás do cangaço, cedendo espaço ao banditismo. Muitas atrocidades foram cometidas e Buíque não ficou fora da lista de cidades invadidas e marcadas pelo medo dos homens encouraçados que desafiavam a todos.

Abaixo, segue uma sequência cronológica de transcrições retiradas de recortes de jornais de várias cidades e estados brasileiros da época que os bandoleiros deixaram suas marcas em terras buiquenses. Obs.: Os textos seguem fiéis a maneira como foram escritos:

Telegrama do capitão João Nunes

O chefe de policia de recebeu telegramma de buique, do capitão João Nunes, commandante da força volante, comunicando que um numeroso grupo de cangaceiros, chefiados pelo celebre facínora Casimiro Honorio, cercou a fazenda Jacaré. De propriedade de Clementino de tal, onde fizera toda sorte de depredações e continua a ameaçar aos moradores, mandando carta e afim de desoccuparem as propriedades, sob pena de morte.

Jornal do Commercio. Telegrama do capitão João Nunes. 18 de out. 1916.

 O banditismo no interior

Os cangaceiros continuam a assaltar os nossos sertões. Há dias, num dos municípios deste Estado, houve um ligeiro encontro em grupo de bandidos e particulares.

Ao que soubemos, o município de Buique está sendo atacado pelos bandidos, que commettem as maiores depredações..

A proposito recebemos, hontem, o seguinte despacho telegráfico, para a qual chamamos a atenção do dr. Luiz Correia, chefe de policia:

“Buique, 20 – Peço nterceder junto ao dr. Governador do Estado para ser tomada enérgica providencia contra o cangaceiro Antonio Leite e companheiros, os quaes no intuito de carregarem a u’a minha rmã moça, atacaram a casa não nos encontrando. Moro no Brejo Prioré. Procurei o delegado e este disse que nada podia fazer. Ando foragido. Saudações. – Pedro Raphael.”

Jornal do Recife. Banditismo no interior. Anno LXIII. 22 de mar. 1920.

Nota – Lampião abate fazendeiro próximo a Buique

– No dia 17 consta-nos que perto de 4 leguas de Buique e de Pau Ferro foi assassinado por Lampeão o fazendeiro Joaquim Severo, tendo havido 8 mortes após o tiroteio no grupo contrario que ofereceu resistencia ao bandido.

– Em Custodia referindo-se as forças volantes que o perseguem disse só reccciar o major Theofanis “o único official que tem estomago de trocar bala commigo”.

– Em Rio Branco chegaram 24 praças que seguiram em um caminhão para Buique, no dia 18. – Um caixeiro viajante.”

A Provincia. Nota sobre fazendeiro assassinado. 24 de nov. 1920.

Morte de um celebre criminoso

O delegado de policia de Buique officiou ao dr. Chefe de polícia, comunicando haver encontrado morto no logar “Chan da Serra do Catimbó”, do citado municipio, o individuo Antonio Leite.

O referido individuo era um dos mais celebres bandoleiros que infestavam os sertões brasileiros.

Jornal do Recife. Morte de um celebre criminoso. 12 de maio 1921.

Cangáceiros

CANGÁCEIROS – Um grande grupo de cangaceiros, açoitado de Alagoas, invadiu Pernambuco, penetrou ao municipio de Buique, avizinhou-se de Rio Branco e parece procurar a Parahyba, sem que haja a menor força publica ou particular que se lhe opponha.

Dizem que esse mesmo grupo ameaça esta cidade, sob prtexto de tomar uns presos, detidos na cadeia sem guarda.

Jornal do Recife. Cangáceiros. 18 de jun. 1921.

Em luta com “Lampeão”

Recife. 27 – As forças pernambucanas encontraram-se, domingo último com o grupo chefiado pelo bandido “Lampeão”, num povoado distante seis léguas de Buique.

Os bandidos perderam quatro companheiros e deixaram doze cavalos, levando diversos feridos.

Estado. Em luta com Lampeão. 29 de jan. 1927.

Lampeão em fuga

Recife, 31.

O chefe cangaceiro de Lampeão teve um encontro com as forças da policia pernambucana, perdendo quatro homens, em São Domingos, fungindo, em seguida, pela estrada de Buique.

Jornal do Commercio. Lampião em fuga. 1 de fev. 1927.

Lampeão sequestra Juiz Buiquense

O bandido de Lampeão aprisionou o juiz de direito de Buique, dr. João Evangelista, na estrada do Rio Branco, exigindo vinte contos de réis.

O governo tomou enérgicas providencias para salvar a vida daquelle magistrado.

Jornal do Commercio. Nota sobre sequestro de Juiz de direito buiquense, por Lampião. 1927

Tiroteio entre lampião e forças pernambucanas

Lampeão foi atacado pelas forças pernambucanas, commandadas pelos sargentos João Alves, Manoel de Mello e cabo Liberato, logar Varzea Formosa, município de Buique, havendo um tiroteio entre o grupo e as referidas forças.

No local do fogo foram encontrados vestígios de sangue, parecendo que Lampeão ou algum dos seus comparsas foi ferido no tiroteio.

Jornal do Commercio. Tiroteio entre lampião e forças pernambucanas. 21 de out. 1927.

Lampeão

GARANHUNS, 2 (A. B.) – Noticias que acabam de chegar da zona onde se opera o grupo de Lampeão, confirmam o rompimento do cerco em que ali se encontrava desde o assalto feito á Villa de Serrinha, neste município, surgindo na propriedade  Lagoa do Braz, município de Buique, e assassinando no sítio macunan o vaqueiro José Pinto e um seu filho.

As forças policiaes e elementos civis, sacrificados pela sanha dos facínoras, continua em tenaz perseguição ao bandoleiro. A hostilidade da natureza do terreno, geralmente constituido de cerradas caatingas, muito dificulta a acção da policia, dando a impressão de falta de eficcencia das forças que combatem os temíveis cangaceiros.

Correio de São Paulo. Lampeão. Anno IV, 02 de ago. 1935

Victima da perversidade dos cangaceiros

Recife, 26 (H.) – Pelo trem do Sertão chegou ante-hontem á noite a esta capital o agricultor Luiz Lourenço, de 22 annos, residente na localidade de Catimbáo, no municipio de Buique, victima do grupo de Lampeão.

Luiz Lourenço, visivelmente acabrunhado, a custo respondia as perguntas que se lhe faziam. Inquirido como acontecera a mutilação, Luiz declarou que “ao amanhecer da terça-feira, foram os habitantes de Catimbáo surpreendidos com a presença de um grupo armado, composto de 8 homens e uma mulher, chefiados por Virgilio, cunhado de Lampeão. Abordado por Vigilio, foi intimado a trazer um cavalo á sua presença. Satisfeita a vontade, acto continuo sacou Virgilio de um trinche-te, dilacerando-me os testiculos, insinuando-me curar com sal, vinagre e cinza. Fiquei entregue a minha própria sorte até a tardinha, quando fui socorrido por varias pessoas e transportado para Rio Branco, onde recebi os primeiros curativos. Aqui no Hospital aguardarei o epílogo da triste tragédia em que fui envolvido…”.

Correio de São Paulo. O bando de “Lampeão” cercado pelas forças policiaes da Parahyba e Pernambuco. Anno IV. 26 de maio 1936

Os cangaceiros estão matando e depredando no interior de Pernambuco e Parahyba

As providencias tomadas pela policia do nosso Estado

Há vários dias que os cangaceiros, em bandos numerosos estão actuando nos sertões de Pernambuco e Parahyba.

EM PERNAMBUCO – Antehontem os bandoleiros atacaram a povoação de BUIQUE, vizinha á cidade de PETROLINA. Ahi mataram 4 pessôas e mutilaram outra.

Os cangaceiros estavam armados e municiados, parecendo que engrossam o grupo alguns remanescentes do movimento de novembro, em Recife.

O capitão Netto, á frente de 280 homens, deu um combate aos inimigos da ordem, obrigando-os a dispersar…

A Ordem. Os cangaceiros estão matando e depredando no interior de Pernambuco e Parahyba. N. 247. Rio Natal-RN. 26 de maio 1936. Anno I.

Mais uma vez Lampião esta’ cercado

Os bandoleiros usam balas Mauser, modelo 1935

Recife, 25 (Havas) – Noticia-se que a sede do grupo comandado por “Lampeão”, foi localizado hontem pela policia. Acrescenta-se que o mesmose encontra entre Santomé e Poções e está cercado por forças deste Estado e da Parahyba.

Recife, 25 (Havas) – O tenente Raul, do Serviço de Alistamento Militar, que esteve em Buíque, declarou á imprensa ter constatado o uso de balas de fuzil Mauser, modelo 1935, pelo bando de “Lampeão”.

Correio da Manhã. Mais uma vez Lampeão esta’ cercado. 26 de maio 1936

O Grupo de Lampião está cercado pela policia de Pernambuco e Parahyba, na Serra do Frango

[…] Em Buíque

Chegou hontem a Recife, sendo transportado para Pronto Socorro, o agricultor Manoel Bezerra Lourenço, pardo, de 22 annos de idade, solteiro, residente em Buíque, que foi victima da perversidade instinctiva de um dos bandoleiros do grupo de <<Lampeão>>, que actualmente se encontra em território pernambucano.

Sexta-feira ultima, quando se dirigia para o seu trabalho, o agricultor Manoel Bezerra encontrou-se com um dos cangaceiros de <<Lampeão>>, que o deteve e obrigou-o a pegar um animal que pastava em um cercado.

Em seguida, depois de ver cumprida a sua ordem, Virginio – assim se chama o bandoleiro – num gesto de crueldade e covardia, despiu Manoel Lourenço e com um golpe de trinche-te emasculou-o.

Algumas horas depois, o agricultor Manoel era levado para Buique, onde tomou o trem para o Recife.

No hospital e Pronto Socorro, onde está internado, Manoel Lourenço foi submetido a uma intervenção cirúrgica, que foi praticada pelo dr. Bruno Maia, com o auxilio do acadêmico Moraes Guerra e do enfermeiro Odilon Araujo. E’ gravíssimo o estado de saúde do infeliz homem.

A Ordem. O Grupo de Lampeão está cercado pela policia de Pernambuco e Parahyba, na Serra do Frango. Natal-RN. N.248. 27 de maio 1936. Anno I.

A lucta contra o cangaço

Rio, 20 – Communicam de Maceió, que o commandante dos soldados alagoanos que estão combatendo o grupo de lampeão telegrafou ao secretário do interior do Estado nos seguintes termos:

“Lampião está desaparecido nas caatingas de Buique e Santo Antonio, tendo a nossas forças regressado, de acordo com capitão commandante em virtude de se encontrarem muito cansadas. Surgiu no municipio de Matta grande grupo que veio de Floresta acossado por volantes pernambucanos. Botei os volantes locais tambem em acção. Estou providenciando outras medidas. Retornarei á Matta Grande logo que me desobrigue aqui”.

O Estado. A lucta contra o cangaço. P.7, 23 de maio 1938.

SOBRE O AUTOR

Publicitário, especializado em Comunicação Empresarial. Interessado em turismo de aventura, história, cultura, ciência e artes. Nas horas vagas, dedica-se a leitura, pesquisas, registros fotográficos e audiovisuais envolvendo Buíque e o Parque Nacional do Catimbau.

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