Vigário João Ignacio de Albuquerque

Nascido em 20 de agosto de 1846, em Cajazeiras do Rio do Peixe – Paraíba. Foi o mais velho dos 8 filhos de Manoel Gomes de Albuquerque Angelim e Piedade Ignacio Modesto Lins de Siqueira (casados em 1844), seguido dos irmãos: Manoel Gomes de Albuquerque (1847-1936), Joaquim Natégio de Albuquerque (1848-1942), Maria da Piedade Albuquerque (1849-1930),  Josefa Lins de Albuquerque (1850-1930), José Carlos de Albuquerque (1851-1935), Joaquim Ignacio de Albuquerque (1852-1938) e José Modesto de Albuquerque (1853-1928).

Em 1878, João Ignacio de Albuquerque veio à Buíque exercer a função de Vigário da Paróquia de São Félix de Cantalice, trazendo consigo toda sua família, incluindo os Modestos, todos vindos de Cajazeiras-PB. Era sempre visto ao lado de senhoras idosas de sua família.

Enfrentamento da epidemia de varíola

Em virtude dos serviços prestados durante o enfrentamento da varíola na comarca de Buíque – província pernambucana, recebeu do Ministério do Império, na data de 15 de dezembro de 1883, o título de Cavaleiro da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para combater a doença, os cidadãos queimavam excremento de boi e creolina sobre cacos de telhas, criando uma espécie de repelente no qual acreditava-se conter aquele mal. As pessoas tinham pavor das injeções. Contudo, o vigário fazia uso de sua autoridade, vacinando-os de todo jeito e diariamente atravessava as serras sob o préstimo de salvar vidas.

“… ordeiro e prestimoso, como é, tem sabido impor-se ao respeito, consideração e amizade de todos os seus jurisdicionados, e ninguém, quer no Buique quer na Pedra deixa de apreciar as virtudes de tão exímio colaborador da Vinha do Senhor”. (Diario de Pernambuco. 1884, p.2).

Egresso político

João Ignacio teve tanta influência política e social que mesmo os paroquianos reclamavam em surdina, da falta de dedicação do padre aos cultos na igreja. Em 01 de novembro de 1890, foi eleito o diretório do Partido Católico da freguesia do Buique, com adesão de 212 eleitores. Faziam parte do diretório, o Comendador Manoel Camelo Pessoa Cavalcante – presidente; o Vigário João Ignacio de Albuquerque – vice-presidente; os capitães João Olavo de Souza e José Gomes dos Anjos; os secretários: capitães Manoel Rodrigues de Lima Oldrado e Joaquim Bezerra Torres, tenente Melchiades de Albuquerque Cavalcante e Joaquim Gurgel Pereira, alferes Manoel Honório Bezerra de Sampaio e também Antonio Pinto do Amorim Ramos e Leoni Francisco Bezerra – membros.

A face do vigário

O Vigário era visto como pessoa de boas referências para a maioria dos cidadãos, exceto para as crianças. A exemplo do menino Graciliano Ramos, que anos mais tarde se tornaria um dos maiores escritores brasileiros e publicaria um dos livros de maior relevância para a história do município. O título da obra é “Infância”, que revela em detalhes, aspectos da cidade na época e as pessoas que vivam nela. Entre elas o Vigário João Ignacio – homem sério, grosseiro, exigente e desbocado. Contudo, respeitado por todos diante de sua representação religiosa e grande influência política.

“Padre João Inácio não sabia falar conosco, sorrir, brincar – e as nossas almas se fecharam para ele. Em padre João Inácio, homem de ações admiráveis, só percebíamos dureza” (RAMOS, 1981, p. 42).

A face carrancuda de sobrancelhas encontradas, olhar autoritário envolto em mistério, quase sempre evitado por cabeças baixas e servis, gerava um grande receio nas pessoas, talvez pela lembrança de constantes reclamações e resmungos que somado àquele olho cego e inexpressivo, fazia de sua imagem, um símbolo de soberania sobre os gentios.

“Tínhamos, porém, razão para temer aquele homem tenebroso por fora e por dentro. Não ria. O olho postiço, imóvel num círculo negro, dava-lhe aspecto sinistro”. (RAMOS, 1981, p. 40).

Pleito de 1892 a 1895

Em 25 de março de 1892 – quatorze anos depois de sua chegada à Buíque, tornou-se o primeiro prefeito republicano de Buíque. Porém, somente ocupou o cargo em 15 de novembro daquele ano. Não há na prefeitura, cartório ou museu municipal com qualquer informação sobre as primeiras Leis e decretos ou qualquer documento referente àquele período. Apesar de ter exercido apenas 1 pleito, João Ignacio, continuou como um grande influenciador político local.

Outras funções de destaque

Em 1901 era chefe do Partido Federal de Buíque. Ano em que foi eleito Antônio Ferreira Cavalcanti Badega, no qual o vigário ocupou também a função de delegado de ensino do município – o equivalente ao cargo de secretário de educação.

Foi expositor da exposição nacional de 1908, no qual, entre outros representantes do Estado de Pernambuco, na seção de indústria fabril: a intendência de Buíque levou o produto goiabada; e em nome do vigário: ocre de diversas cores. Na categoria indústria extrativa: amostras de mercúrio, salitre, breu, alúmen, sal-gema, areia roxa e vermelha e água mineral termal.

Atrito de João Ignacio com o Major França após a reforma da Capela de São Sebastião (sede)

Com a ajuda da população, o Vigário promoveu uma reforma de ampliação da Capela de São Sebastião (sede). No dia de sua reinauguração, o Major França colocou uma faixa na frente da capela com os seguintes dizeres: “Construída pelo Major França Monteiro”. Tomando conhecimento da ação, o Vigário mandou retirar de imediato tal faixa, substituindo-a por outra que dizia: “construída com a ajuda do povo”. A provocação teve lá suas fundamentações políticas, visto que ambos sempre estiveram em lados opostos na política local. Foram grandes influenciadores políticos na época. Com o passar do tempo criou-se a falsa crença de que a capela teria sido criada pelo Vigário por conta dessa última reforma. Contudo, é sabido que quando da chegada de João Ignacio a Buíque, a capela de São Sebastião já existia e também não há qualquer indício de quem tenha sido construída pelo Major.

As grosserias de João Ignacio

Uma das célebres cidadãs buiquenses – a professora Dona Dodôce, tratava o Vigário João Inácio por ‘‘Tio Padre’’. Isso, porque o Vigário era irmão de sua madrasta. Ela conhecia de perto algumas feitas do ex-prefeito religioso com fama de “pavio curto”:

Trem em Buíque? Não! – A rispidez do vigário era sua marca pessoal. Buíque seria uma das cidades contempladas com a passagem da linha férrea que ligava Recife ao sertão do Estado. Porém, a pedido do vigário e prefeito da cidade em viagem a capital pernambucana, conseguiu-se que a linha férrea fosse transferida  para Olho d´água dos Bredos (futuro município de Rio Branco, atual Arcoverde).

A justificativa era a de que o tráfego dos trens traria doenças e prostitutas para a cidade. Porém, tal justificativa tinha o reforço opinativo de influentes fazendeiros e políticos que não queriam ceder partes de suas terras para a passagem do trem. O pedido acabou retardando o desenvolvimento local. Buíque era na época, uma das maiores produtoras de insumos agrícolas do agreste meridional. As estradas eram precárias e a produção de algodão, fumo, cordas, entre outros produtos, era exportada para Garanhuns.

Dê passagem ao cachorro – Houve o dia em que um moço vindo da zona rural, foi até a casa do vigário, levando consigo, um peru debaixo do braço. A ave seria um presente para o Vigário.

O rapaz, chamou e bateu à porta. Porém, ninguém apareceu. Tendo visto a janela aberta, sem nenhuma má intenção, pulou para deixar o animal. Contudo, no mesmo instante, aparece o reverendo que dirigindo-se a outra pessoa que estava na casa, ordenou: “Abra a porta e dê passagem ao cachorro que acabou de pular a janela”. Desconfiado, mas talvez conhecendo o temperamento do Vigário, o rapaz deixou o presente e partiu.

Tromba de porco – Certa vez, um cidadão convidou o Vigário para almoçar em sua casa. Após muita insistência, o convite foi aceito. À mesa havia uma ¹terrina (recipiente onde se coloca um caldo ou molho especial para acompanhar a comida em porções.

Durante o almoço, o vigário parou de comer e observou o anfitrião servir-se do molho da única terrina à mesa, usando a mesma colher que levava comida à boca. Sem demora, bravejou o vigário a um serviçal: “Traga outro recipiente com molho porque este aqui, o porco enfiou a tromba dentro!”.

***

Cachorro e porco: dois animais que para o Reverendo figuravam bons insultos contra as pessoas que o desagradavam. Graciliano Ramos, no livro infância revela:

“Padre João Inácio tinha muito de Frei Clemente: não chegava a açoitar os paroquianos, mas, se se aperreava, distribuía insultos aos pequenos, raça de cachorro com porco. Esse desacato era proferido com energia e gritos, fora do púlpito, pois não consta que Padre João Inácio haja pregado”. (RAMOS, 1981, p. 32).

O antigo Vigário e primeiro prefeito de Buíque, nomeia a praça situada em frente à Casa Paroquial da Matriz de São Félix de Cantalice, anexada ao lado da praça Major França – no centro da cidade. E também uma escola Estadual, localizada à rua Aurora Laerte Cavalcanti, nº157.

Faleceu em 15 de agosto de 1915, há cinco dias de completar 69 anos. Foi sepultado no dia seguinte, na capela do cemitério de Buíque (sede), construída em 1905, sob sua orientação para servir-lhe de mausoléu.

¹Terrina: recipiente em forma de panela, geralmente com tampa, também conhecido como soupeira.

Referências:

  • Depoimento cedido por Adelson Carvalho que revelou memórias compartilhadas por sua avó, a ex-professora Dona Dodoce.
  • RAMOS, Graciliano. Infância. Editora Record. Edição 48º. 16 de maio 2003.
  • Diario de Pernambuco. 23 de janeiro de 1902. p.2.
  • TOLEDO, de Veríssimo. Almanak do Estado de Pernambuco, administrativo, mercantil, agrícola e industrial para 1894. II ano. p. 149.
  • Diario de Pernambuco. Parte Oficial. Ministério do Império. Ano LIX, n. 298. 28 de dezembro de 1883.

SOBRE O AUTOR

Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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