Uso, comércio e influência do sal buiquense

Uso, comércio e influência do sal buiquense

O termo “sal” é de origem grega: hals e halos, representando sal ou mar. A palavra “halita” é uma derivação do primeiro termo e está associada ao cloreto de sódio encontrado em depósitos naturais, comumente conhecido como: halita-laranja (sal-gema), sal de pedra e sal grosso.

Da palavra sal, também deriva outro termo bem conhecido: o “salário”. Na Roma antiga, existia uma via de transportes chamada Via Salária ou estrada de sal. Nessa via passavam as caravanas trazendo carregamentos de sal e cristais preciosos. O pagamento pelo serviço era chamado: salarium que significa: “dinheiro de comprar sal”. O tempero essencial para dar gosto aos alimentos era dado em certas porções como parte do pagamento por serviços prestados. O sal é usado para preservação de alimentos desde 2000 A.C.

Primeiras explorações do salitre em Buíque

Quando os holandeses governaram Pernambuco, várias incursões foram feitas pelo sertão nordestino em busca de ouro, prata e salitre. Após a expulsão dos holandeses, os portugueses encontraram nos Campos do Buique, o salitre que tanto almejavam para a fabricação de pólvora.

Sempre se falava nas minas dos CAMPOS DO BUIQUE, onde, por sinal, tinham estado os holandeses, em procura de ouro, prata ou mesmo de salitre. Assim, Surrel, em companhia do coronel LEONEL DE ABREU E LIMA, na época, futuro dono da Fazenda Cabo do Campo, naquela região, fora explorar a nitreira buiquense. (BARBALHO, Nelson. P. 66)

Entre 1696 e 1699, Caetano de Melo de Castro, foi Governador de Pernambuco. Período em que foram descobertas as jazidas de salitre nos campos do Buique. Mas as explorações aguardaram até o dia 2 de dezembro de 1700 para que o governo da capitania emitisse uma Carta Régia, regularizando a exploração do mineral.

A carta determinava a criação de uma fazenda pastoril. Onde seria feito um curral para manter 50 vacas ofertadas aos contratadores via dízimos reais e com acréscimo de 4 éguas compradas. Construiu-se ali um aldeamento contendo 80 casais indígenas que serviram como mão-de-obra e eram alimentados com animais de criação e pela produção agrícola cultivada. A outra parte dos animais era usada para auxiliar no trabalho de extração das nitreiras.

Os aldeados passaram a viver em barracas e um capitão-mor foi eleito para governar aquela investida. Logo, apareceram muitos operários e especuladores, estes últimos passaram a explorar terras vizinhas em busca de novos pontos para extração.

As más condições enfrentadas no transporte do mineral até a capital em seus 390 km e os resultados obtidos nas extrações, quando comparados aos custos, inviabilizavam a extração. Tentaram prosseguir e apesar da persistência, em 1709 os serviços acabaram sendo suspensos. Os operários se retiraram e os animais e maquinários foram vendidos.

A partir daquele primeiro aldeamento, os Campos do Buíque passam a servir de moradia para os indígenas e outras famílias que ali se estabeleceram, dando início as primeiras povoações.

Ainda nos anos 20 do século XX, o salitre podia ser encontrado nas camadas vermelhas da Serra do Coqueiro e no Brejo de São José. O sal tinha cor avermelhada devido a presença do óxido de ferro. O minério extraído dos paredões deixava cavidades nas rochas que se assemelhavam a retirada de cera de um ouvido. Assim, o salitre retirado das rochas era chamado pelos mineiros de “salitre de orelha”. Quanto ao salitre colado no grés, chamavam-no “salitre de corte” – devido à necessidade de se fazer um corte com uma espécie de machado sobre a superfície rochosa. Os afloramentos ora apareciam sob tonalidades vermelhas (por conta do óxido de ferro) ou branco – quando havia ausência de óxido de ferro, formando assim, as lâminas finas sobre as rochas. Na Serra da Andorinha, além do sal-gema, podiam ser encontrados o carvão de pedra e o salitre.

Em 1863, o mineral era amplamente utilizado pelos buiquenses como condimento e para a confecção de fogos de artifício.

“O nitrato de potassa ou salitre, para o lado das confinações com o Buique, encontra-se, e tem sido aproveitado pelos fogueteiros”. (GALVÃO, 1908, p.13)

Das rochas por onde aflorava o salitre, saía uma matéria orgânica de cor escura conhecida como borra. A borra amolecia e escorria pelas pedras, logo ressecando por influência do calor e da humidade. Por mais de 50 anos de extração contínua, jamais foi necessário escavar a rocha para a obtenção do sal que continuava a aflorar. As retiradas eram superficiais. Isso porque o salitre existia apenas nessa camada externa das rochas, não configurando um depósito sedimentário.

A noroeste de Buíque, as serras são constituídas de grés com camadas elevadas entre 10° e 15° para o sudeste causados pelo erguimento da serra buiquense. O mesmo ocorre com as Serras da Andorinha e do Chapéu. O salitre, de origem marinha, foi depositado no grés por meio de evaporações e explorado ao máximo.

O sal extraído da água

O sal tirado da água aflorava somente depois das chuvas, que realizava um trabalho natural de concentração e possibilitava a exploração do sal presente no fundo dos riachos. Na lagoa do Puiu (hoje pertencente ao município de Ibimirim-PE), quando nos períodos chuvosos, as águas transbordavam, possibilitando coletas em grandes quantidades de sal-gema. O Puiu possui aproximadamente 1500m x 209m de extensão, raramente seca, resistindo por longos períodos de estiagem.

Para obter o sal, utilizavam-se cubas largas e pouco fundas, feitas de madeira. O processo de coleta adotado era o mesmo realizado nas salinas à beira-mar, a água ficava empoçada e da evaporação pelo calor do sol, surgia o sal de excelente qualidade.

No final do século XIX e início do século XX, o principal meio de comercialização do sal-gema produzido em Buíque ocorria nas feiras da cidade, chegando a ser vendido por 200$ réis a cuia, quando abundante. Na cidade, não havia necessidade de abastecimento vindo de fora. A produção local era suficiente para suprir toda população. Porém, não para produção em escala industrial.

Na década de 1920, o que restara do sal nas rochas era extraído por Félix de França Monteiro, proprietário da fazenda do Brejo de São José, que mantinha poucos afloramentos onde ocorriam as extrações.

O sal na religião e crendice popular

O sal na antiguidade era usado por sacerdotes e em cerimônias mágicas como elemento capaz de afugentar os maus espíritos ou demônios. Os banhos de sal para descarrego ou limpeza espiritual, perseveram, no geral, sob indicação de pessoas ligadas ao misticismo e/ou religiões afros.

No catolicismo, o sal faz presente no sacramento do batismo. No qual é colocado na boca da criança sob a audição da frase: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo” (alusão remitida ao Sermão da Montanha pregado por Jesus [Mateus: 5-7]). Que carrega em si um sentido filosófico-cristão de que este é alguém que como Cristo deve temperar o mundo com boas práticas, pelos caminhos do bem, daquilo que se faz bom gosto.

A prática de usar o sal no batismo vem da Roma Antiga. Era tido como símbolo de sabedoria e assim o derramavam diluído em água sobre a cabeça das crianças sob intuito de que não lhes faltasse sabedoria. Os Judeus usam o sal como elemento purificador, e no batismo, colocam o sal sobre os lábios dos recém-nascidos. Para os evangélicos, o não uso do sal no batismo se deve a abolição de seu uso, feita por Lutero no século XVI.

O sal na origem do nome Buique

Uma das teorias acerca da origem do nome Buíque afirma que Buíque é corruptela do tupi: yby (a terra, o solo) + Yique (sal). Significando assim, “terra do sal” ou “sal da terra”. Essa definição foi concluída por Alfredo de Carvalho, engenheiro recifense, autor de “O tupi na corografia pernambucana: elucidário etimológico”, publicado em 1907. O fato de haverem ocorrido as explorações do salitre em Buíque no início de 1700, contribuiu para essa formulação. No entanto, não há qualquer outra referência que reforce essa significação. Por muito tempo o salitre foi visto como o primeiro minério explorado em Buíque e guiando-se pela língua falada entre os antigos habitantes do Brasil, yby é terra em tupi. Porém, yique equivale a sal, mas no guarani. Sendo Yukira, o termo próprio para sal no tupi. Essa versão de Alfredo de Carvalho é das teorias anteriores a ela, a de maior aceitação.       

Crendices envolvendo o sal

No passado buiquense e noutras cidades vizinhas, era comum a prática de deixar o sal-gema de molho num balde com água, para em seguida ser usado para lavar o piso de uma casa ou estabelecimento comercial. A limpeza era feita de trás para a frente do imóvel. De acordo com a crendice popular, acreditava-se que a propriedade de absorção do sal levaria consigo o mau-olhado, a inveja ou qualquer outra energia negativa deixada por pessoas “carregadas” dessa energia astral.

Embora esse costume não ocorra com a unanimidade de antes, há ainda residências e pontos comerciais que armazenam em recipiente, o sal-gema (sal-grosso), no sentido de proteger o local contra energias negativas ou o mau-olhado trazido por pessoas invejosas. O sal buiquense foi sem dúvida, um dos elementos fundamentais para o desenvolvimento da cidade sob vários aspectos.

O sal buiquense na arte popular

Buíque terra do sal, das areias coloridas do vale do Catimbau – Esse é o refrão de uma das mais populares músicas da cidade: “Buíque (terra do sal)”, composta por Alex Soares, Marquinhos Leite e Ronaldo Cezar de Melo Cavalcante (César Matuttano). A banda “Matutano”, fundada por Cezar em 2012, tratou de explorar aspectos regionais, transformando-os em melodia. A música fez sucesso entre os mais jovens e tornou-se uma espécie de hino local.

Cordelistas e poetas buiquenses também têm “explorado o minério”. Contudo, através de textos rimados, elucidando a história, cultura, o turismo e a arte com grande criatividade.

 


Referências:

  • REVISTA DO INSTITUTO ARQUEOLÓGICO, HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE PERNAMBUCO. Typographia do Jornal do Recife. Vol. 12, 639p. Recife, 1907.
  • GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos. Diccionario Chorographico, Historico e Estatistico de Pernambuco. 478p, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1908.
  • ASSIS, Virgínia Maria Almoêdo de. ACIOLY, Vera Lúcia Costa. Buíque: Uma história preservada. 2004.
  • BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana. Subsídios para a História do Agreste e do Sertão. Vol. 2. Tópico 274. Centro de Estudos de História Municipal. FLAM – Recife. 1982.
  • MUSEU PAULISTA. Revista do Museu Paulista, Vol. 2, São Paulo, 1895.
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Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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