Origem dos nomes Alcobaça e Carneiro

Os povos árabes ou muçulmanos adentraram o território português no ano de 711 e lá permaneceram até 1249. Por séculos foram encarados como invasores, motivo pelo qual a presença de sua cultura era desvalorizada e desfeita. Eram comerciantes natos e conheciam muitos lugares. A cultura árabe influenciou várias outras e terminologias de sua língua estão espalhadas em várias línguas do mundo. Até mesmo o nome da capital portuguesa é de origem Árabe (Lisbûna – Lisboa). Além de Portugal, a Espanha também foi muito influenciada por esta cultura, apresentando esta, traços mais preservados da presença desses povos na região.

Alcobaça é o nome de uma cidade portuguesa, pertencente ao distrito de Leiria. Está localizada há 92km ao Norte de Lisboa (capital); existe desde os tempos dos Romanos e se constituiu entre os vales do rio Alcoa que em sua extensão, recebe a junção do rio Baça e deságua no Oceano Atlântico. Historiadores defendem que a palavra Alcobaça deriva do topônimo Árabe (al-Qubasha [carneiro]; que também pode derivar do latim Helicobatia). Assim, a partir desse termo os rios foram nomeados e consequentemente, a cidade.

A fábrica portuguesa de lenços

Em 20 de janeiro de 1774 foi estabelecida na vila de Alcobaça, a Real Fábrica de Lençaria e Tecidos Brancos de Alcobaça. Edificação pertencente a António Rodrigues de Oliveira, André de Faria Rocha, Fernando António de Sousa Teles e Francisco Rodrigues de Oliveira. A fábrica ficou conhecida por seus lenços brancos de algodão com formato quadrangular. A fábrica foi vendida em 1792 a José Carvalho de Araújo, Julião Guillot Filho e Companhia.

Em 7 de Setembro de 1825, por meio de decreto, é autorizado a Julião Guillot e Filhos e, Francisco Vanzeller (testamenteiro de José Carvalho se Araújo), a venda da referida fábrica de lenços, sob a condição de que seu comprador pusesse o imóvel em funcionamento, seja qual fosse a natureza do negócio. A fábrica manteve sua produção de 1734 a 1835.

Um lenço para cheirar rapé

Cheirar rapé é uma prática antiga, mas a origem do lenço de soar o nariz surge da necessidade de o rei amenizar o incômodo trazido pela prática, visto que cheirar rapé provocava coriza nasal. Para limpar, usava-se os punhos ou partes das mangas das camisas. Contudo, o rei francês Luiz XIV, apreciador do rapé, desejou existir um meio para amenizar os efeitos de tal prática, que além da coriza, incluía espirros. Chamou uma modista que costurou panos brancos em linho para que o rei assoasse o nariz.

O pequeno pedaço de pano foi adotado por todos os fidalgos do reino e seu uso também se alastrou por toda Europa. Os lenços, inicialmente tinham 5 lados e depois foram confeccionados de várias outras formas. Em Portugal, a rainha Maria Antonieta, acabou publicando uma Lei que tornava obrigatório o uso quadrado do tal lenço de assoar. Estes que se tornaram adorno de moda, sendo usados à cintura ou com parte à mostra em bolso.

A combinação lenço e fumo, deu ao lenço de assoar um novo termo, o lenço tabaqueiro, usado para cheirar o rapé – uma forma sofisticada. Pois os mais simples, apenas mascavam o tabaco. Com o surgimento da fábrica de lenços de Alcobaça, o lenço tabaqueiro também passa a ser chamado “lenço de Alcobaça” – inicialmente brancos e que depois foram ganhando cores, geralmente azuis ou vermelhos.

No Brasil, era comum entre os antigos portugueses e seus descendentes luso-brasileiros, o uso de um lenço conhecido por “lenço de Alcobaça” para cheirar rapé (tabaco/fumo em pó), costume trazido pelos portugueses. Na época da colonização, os indígenas também cheiravam o rapé para se harmonizar com a natureza durante os ritos de pajelança. Porém, o uso do lenço era uma prática exclusiva dos portugueses. O uso do tabaco entrou em decadência com o avento do cigarro. Inclusive, o uso do próprio lenço.

Al-Qubasha, Alcobaça, Carneiro

Ao contrário do que muitos imaginavam até pouco tempo, o nome “Alcobaça” não deriva do tupi. O termo vem com os portugueses no período colonial e tem origem árabe, que na tradução para o português, significa “Carneiro”. Assim, o termo usado para nomear os rios Alcoa e Baça e a Vila de Alcobaça em Portugal, também foram usados para nomear o o local que encerra um dos maiores painéis rupestres de Buíque e o atual distrito do Carneiro. É possível que o Alcobaça buiquense tenha sido nomeado como um comparativo à brancura do famoso lenço da fábrica têxtil portuguesa com a brancura do solo arenoso da região. Ou, por razões ainda mais simples, “Alcobaça e Carneiro” podem ter sido escolhidos pelo fato de a região ter sido usada para a criação de caprinos.

A origem dos termos Alcobaça e Carneiro em Buíque, ficaram ocultas no tempo por séculos. Porém, diante das ocorrências citadas e sua cronologia, conclui-se que o distrito do Carneiro e o Sítio Arqueológico Alcobaça, foram obviamente nomeados por portugueses colonos que ali estabeleceram moradia. Al-Qubasha naturalizou-se em Portugal, virou Alcobaça e depois, no Brasil, veio parar nos Campos do Buíque, onde enraizou-se.

Referências:

  • ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO – [Base de dados de descrição arquivística]. [Em linha]. Lisboa: ANTT, 2000. Disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381206. Acessado em: 03 de novembro de 2019.
  • NEVES, André Lemoine. A transferência da cidade portuguesa para o Brasil – 1532-1640. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Desenvolvimento Urbano, 2009. Recife, 353 folhas.

SOBRE O AUTOR

Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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