Lopo e as minas de prata

Lopo e as minas de prata dos Campos do Buíque

Lopo de Albuquerque da Câmara era pernambucano, nascido em 1651. Filho dos primos Feliciano Dourado e Isabel da Câmara de Albuquerque. Sendo seus avós paternos: Manoel de Brito Gramaxo (natural de Porto) e Isabel Dourado – irmã do Provisor Salvador Quaresma Dourado. São os avós maternos: Salvador Quaresma Dourado e Bárbara da Câmara de Albuquerque.

Era neto de Matias de Albuquerque Maranhão – fidalgo da casa real, Comendador de São Vicente da Figueira na ordem de Cristo e 1º Sr. do Engenho Cunhaú-RN (nascido em 1596 [Olinda]; falecido em 09 de junho de 1685, no mesmo Engenho – em Cangaretama, Rio Grande do Norte]) e Isabel de Albuquerque Maranhão (nascida da Câmara de Albuquerque, em 1624 [Rio de Janeiro]). Matias e Isabel casaram-se no Rio de Janeiro, por volta de 1638.

O bisavô de Lopo era Jerônimo de Albuquerque [homônimo] (1548-1618), filho de Maria do Espírito Santo Arcoverde (princesa Tabajara nascida: Tindarena ou Tabira Uirá-Ybi – Arco Verde [1510-1548]) e Jerônimo de Albuquerque (pai [1510-1584]), administrador da capitania de Pernambuco – considerado pelos historiadores brasileiros como o Adão pernambucano, por ter sido pai de mais de 30 filhos com várias mulheres dando origem a vários sobrenomes.

O sobrenome Maranhão foi adotado por Jerônimo de Albuquerque [pai] após a conquista de São Luís-MA, na luta contra os franceses em 1613. Ele é filho de Joana de Bulhões e Lopo de Albuquerque (de onde viera o nome do tetraneto: Lopo de Albuquerque da Câmara).

Os 9 irmãos de Lopo:

Antonio de Albuquerque Maranhão (nascido em 1648). Foi fidalgo da casa real, Comendador e mestre de campo em Pernambuco, faleceu solteiro (ano desconhecido); Lopo foi o segundo filho, vindo em seguida: Afonso de Albuquerque Maranhão (1650-1730) – fidalgo da casa real, capitão-mór de Goianinha e senhor herdeiro de engenho de Cunhaú, casado com Joana de Lacerda Cavalcanti; Catharina Simoa de Souza Furna (nascida de Albuquerque em 1648), casada com Luiz de Souza Furna; Joana Novalhes Yurrêa (nascida da Câmara de Albuquerque, em 1649) e casa com João de Novalhes Yurrêa; Barbara Dourado (nascida da Câmara de Albuquerque, em 1651 – faleceu na Paraíba, ano desconhecido), foi casada com Salvador Quaresma Dourado; Marianna de Albuquerque Mello (nascida da Câmara de Albuquerque, perto de 1652), casada com Afonso de Albuquerque Melo; Apolônia da Câmara de Albuquerque (nascida em 1653), que casou-se 2 vezes: com seu primo André Gago da Câmara e depois com Manuel Pimenta de Melo; Jerônimo de Albuquerque Maranhão (nascido em 1649), tornou-se religioso da Companhia de Jesus; Pedro de Albuquerque da Câmara (nascido em 1655) e Ana Maria da Câmara (nascida em 1656).

Vida e morte

Lopo foi fidalgo da casa real, sendo Escudeiro com acréscimo de fidalgo Cavaleiro – recebido em 17 de outubro de 1696.

Residiu na Paraíba, mas casou-se por procuração na Bahia em 2 de fevereiro de 1686 com Francisca de Albuquerque Maranhão (baiana, nascida Xavier Aranha de Sande). Filha do mestre de campo Nicolau Aranha Pacheco. Na ocasião, falecido há 4 anos (29 de outubro de 1670) e Francisca Aranha Pacheco (baiana, nascida de Sande), filha de Francisco Fernandes – senhor da Ilha da Maré, residente em São Bento.

São irmãos de Francisca: Antonio Fernandes Aranha, Pedro Fernandes Aranha, Clara Aranha Pacheco (casada com o capitão Cosme de Brito Cação) e Pedro Aranha Pacheco.

Aos dois de fevereiro de 1686, com minha licença recebeu o Revdo. Padre Manuel Coelho Gato a Lopo de Albuquerque Câmara (em sua ausência foi procurador Pedro Fernandes Aranha), filho de Mathias de Albuquerque Maranhão e de sua mulher D. Isabel da Câmara, morador na cidade da Paraíba, com D. Francisca Clara de Sande, filha do mestre de campo Nicolau Aranha Pacheco, já defunto, e de D. Francisca de Sande sua mulher. Foram testemunhas o Padre Antonio Cavalcanti, D. Ana, mulher do capitão Dr. Martins Pereira e D. Francisca de Sande. O vigário de S. Pedro – João Gomes da Silva”. (Revista trimestral do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1889).

Da sesmaria a redescoberta das minas de prata

Em 1614, alguns exploradores adentraram terras sertanejas do interior pernambucano, alcançando a região do Ararobá/Campos do Buique, nas adjacências do rio Ipanema, do qual sabia-se por relatos de antigos visitantes, da existência de minas de prata que com o passar do tempo acabaram sendo esquecidas.

Em 29 de novembro de 1679, Lopo, juntamente com Luiz de Souza Furna, Antônio de Albuquerque Câmara e Pedro de Albuquerque da Câmara, receberam 20 léguas em extensão de terras por 4 de largura, na Serra do Trapuá – denominada Acauã, hoje Serra do Chapéu, há 10km de Caícó, Rio Grande do Norte. Houvera doação de sesmarias anterior a essa, em 23 de março de 1676 para Teodósio Leite de Oliveira, Teodósia dos Prazeres e Manuel Gonçalves Diniz. Estas são as sesmarias do Seridó.

Uma carta escrita em 22 de novembro de 1725, feita pelo coronel Pedro Barbosa Leal e endereçada ao conde de Sabugosa – vice-rei do Brasil, revela um fato ocorrido em 1698, envolvendo a redescoberta dessas minas por Lopo de Albuquerque da Câmara. Estas que caíram no esquecimento após terem sido encontradas por exploradores portugueses em 1614.

O manuscrito foi encontrado por João Capistrano Honório de Abreu – historiador brasileiro que publicou o conteúdo por completo, na Revista da Seção da Sociedade de Geografia de Lisboa, no Brasil (2ª série, nº 1 e 2, páginas 12, 22-66 e 78), o trecho encontra-se no tópico II das Notas de Seção XXIV do livro de Francisco Adolfo de Varnhagen – militar, diplomata e também historiador brasileiro.

“No sertão do rio São Francisco, quarenta léguas pouco mais ou menos ao sertão da sua barra, da parte de Pernambuco, nas cabeceiras do rio do Panema (isto é, rio Ipanema), descobriu prata com certeza. Prova-se que no ano de 1698, estando Lopo de Albuquerque da Câmara na sua fazenda do rio de São Francisco e barra do dito Panema, mandando arvorar uma cruz sobre um morro agudo ao pé da mesma fazenda, se achou no lugar um morro em que quiseram levantar a cruz um grande levantado padrão de pedra; derrubaram este e se viu que debaixo dele havia uma laje de pedra com esta inscrição:

Minas de prata que achei neste lugar no ano de 1614 que a seu tempo saberá Sua Majestade delas”.

Lopo imaginou que ali mesmo estavam as minas e tratou de cavar até encontrar alguns tijolos, no qual havia uma segunda inscrição informando com exatidão, a serra que continha a mina de prata. Sertão adentro, seguiu de encontro ao lugar apontado, encontrou o minério e levou consigo algumas amostras. Segue a transcrição da carta encontrada por João Capistrano de Abreu, no qual o próprio Lopo escreve, direcionando-a ao Rei Dom João de Alencastro com os seguintes dizeres:


     

     Vou com esta e com toda a verdade dar conta a Vossa Senhoria que, vindo dessa Bahia de minha casa e fazenda a este sertão do rio São Francisco com certos indícios de fazer a Sua Majestade um singular serviço, descobri em certa parte um padrão de pedra com um título escrito com letras redondas em que li o seguinte: “Minas de prata que achei neste lugar no ano de 1614 que a seu tempo saberá Sua Majestade delas”. E, observando o lugar assinalado, vi que reluziam de maneira a terra e pedras que logo tirei algumas da superfície que remeto a Vossa Senhoria para mandar fazer experiência, e tendo alguma conta será de grande conveniência pela facilidade com que se pode abrir e conduzir, o que eu farei nas primeiras diligências a minha custa, por fazer a Sua Majestade maior serviço. Não despreze Vossa Senhoria este meu alvitre porque é dado sem afetação alguma e só com a verdade com que costumo falar em toda a matéria, quanto mais nesta de tanto porte de que podem resultar aumentos para a Coroa, de que me ficam certas esperanças por estes e outros indícios que ninguém chegou a ter nesta pretensão e nesta certeza, terão entendido os oficiais da Câmara que eu não me ausentei por não servir este ano, como agora me avisam chamando-me. Vossa Senhoria me ordene o que hei de seguir, para mostrar em toda a ocasião que sou herdeiro do zelo de meus antepassados no serviço de Sua Majestade, que Deus guarde, e à pessoa de Vossa Senhoria, muitos anos. De junho 6 de 1698. Muito servidor de Vossa Senhoria.

Lopo de Albuquerque da Câmara.


 

A resposta do rei, chegou através do secretário Mendo de Foyos Pereira, autorizando por meio de um despacho, o rompimento das minas. O próprio Dom João de Alencastro viu as amostras de prata na casa da moeda da Bahia, onde foram ensaiadas.

Lopo trouxe mais amostras do minério encontrado. Contudo, enquanto retornava das minas, foi atacado por um animal peçonhento, falecendo quando ainda lhe restara dois dias para alcançar suas terras. Estava na companhia de um escravo que passara a ser o único conhecedor do caminho para as minas.

Os órfãos de Lopo foram 3 filhos jovens: Nicolau Aranha Pacheco com 11 anos (nome homônimo ao do avô paterno, o Mestre de Campo das sesmarias dos Campos do Buíque), Matias de Albuquerque da Câmara, aos 9 anos; e Francisco de Albuquerque da Câmara, aos 7 anos. Sabendo do falecimento, Afonso de Albuquerque Maranhão (irmão de Lopo), seguiu até a fazenda tomou posse da localização e das amostras da prata coletada por Lopo e partiu para Portugal com intuito de requerer ordens e mercês para a extração do minério. Não obteve as vantagens que esperava e diante da frustração, de lá viajou direto para a Bahia e depois para Pernambuco, não manifestando qualquer interesse relacionado as minas.

Francisca, sogra de Lopo e viúva do sesmeiro Nicolau Aranha Pacheco, faleceu em 21 de abril de 1702 e foi sepultada na igreja da Piedade dos Capuchinhos, Salvador, Bahia. Era conhecida por ser uma mulher caridosa. Em épocas epidêmicas, recebia enfermos em sua residência, que se tornava uma espécie de hospital, ali tratava-os e alimentava-os.

Os filhos de Lopo

Nicolau Aranha Pacheco ([homônimo do avô paterno] nasceu por volta de 1687, na freguesia de São Pedro, Bahia); casou-se em 1712, com Magdalena Clara Maria, filha do capitão João Pereira do Lago e Bernarda Siqueira da Silva. Nicolau foi tabelião e proprietário de um cartório. Acabou enlouquecendo no período em que exercia a função de alferes do mestre de campo.

Com Magdalena teve 1 filho:  Pedro de Albuquerque Câmara, que se tornou fidalgo da casa real por ascendência e casou-se com Catharina Francisca Correia Vasqueanes ou de Aragão, viúva do mestre de campo Francisco Dias de Ávila – da casa da torre (que com ele teve um filho: Garcia de Ávila Pereira), não havendo sucessão com Pedro. Contudo, na época do matrimônio, Pedro teve com uma mulher solteira, dois filhos ilegítimos: Manoel José da Purificação e Clara Madalena de Albuquerque Câmara, posteriormente legitimados e recebedores de herança, com permissão da viúva de Pedro. 

Matias de Albuquerque Câmara (nascido em Salvador – Bahia, perto de 1689); o nome Matias é uma homenagem ao avô, pai de Lopo. Matias virou religioso, foi Cônego da sé da Bahia, fidalgo capelão da casa real que posteriormente, seguiu para o Rio de Janeiro, sob intuito de obter herança de sua tia: Apolônia da Câmara de Albuquerque (nesse período, ainda casada com o primo dela: André Gago da Câmara); Matias faleceu também no Rio de Janeiro (datação desconhecida).

Francisco de Albuquerque da Câmara (nascido em 1691); casou-se com Maria Thereza de Albuquerque da Câmara. Antes do casamento, Francisco tivera uma filha: Maria Magdalena Câmara (nascida em meados de 1716 e 1718) que se tornou freira do convento do desterro – em Salvador-BA.

Foi o único interessado em dar continuidade nas buscas pela mina de prata encontrada pelo pai, era o administrador das fazendas do rio São Francisco e barra. No qual vivia o escravo que acompanhou seu pai no caminho até a serra buiquense onde estariam as minas.

Nova busca pelas minas de prata

As minas de prata encontrada pelos portugueses e reencontrada por Lopo, pareciam estar destinadas a não serem exploradas. Após a morte de Lopo, somente o escravo que o acompanhou na expedição, conhecia o curso das minas. O irmão de Lopo, tinha os papéis com a localização aproximada do local, mas havia sumido com eles.

Interessado nas minas. Francisco, filho de Lopo, pediu para que o escravo o guiasse até o local. O homem tentou negociar sua liberdade, pedindo-lhe a alforria em troca da localização da minas. Francisco encheu-se de ira diante da condição imposta pelo escravo e o assassinou com um tiro de arma de fogo. Dois anos depois, persistindo na busca, Francisco consegue encontrar o local.

Não há notícias de até quando o minério fora explorado. Francisco faleceu em 21 de julho de 1763 e foi sepultado no convento de São Francisco – Salvador, Bahia.


Referências:

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Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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