Buíque na rota das Revoltas Republicanas

Buíque na rota das Revoltas Republicanas

A primeira notícia que se tem de um suposto envolvimento de buiquenses acusados de tramar contra o império data do início do século XIX. Observa-se através de algumas menções, que Buíque possuiu militantes predispostos a contribuir com a ascensão republicana. E embora haja pouca informação detalhando as razões pelo qual o lugar fora mantido como ponto de apoio para grupos revolucionários.

Após o fim do movimento revolucionário ocorrido em 1817, quando o padre Francisco José Coelho Góes – vigário da Freguesia de São Félix do Buíque, esteve em Recife para denunciar o Capitão-comandante Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo, juntamente com André Cavalcanti de Albuquerque, Antônio da Silva, Francisco Lopes Freire, José de Albuquerque Cavalcanti, Luís de Araújo, Francisco, Manoel Camelo Pessoa Cavalcanti e Manoel Monteiro da Rocha. Sendo estes, acusados por formação de conventículos. No qual, José Ferreira da Silva – sacristão português da matriz de São Félix de Cantalice – afirmava que em certa casa de palha ocorriam reuniões de caráter revolucionário e os frequentadores manifestavam expressões simbólicas estranhas.

O ouvidor da Comarca do Sertão, Antônio Joaquim Coutinho, iniciou apuração sobre a denúncia que resultou na prisão temporária de alguns desses que logo foram soltos por não haver provas a respeito. Constatou-se que a tal casa era uma palhoça frequentada por populares para dançar baião. Contudo, a falta de provas não anula a possibilidade de ter ocorrido tais encontros.

A Revolta de 1829

Em 1829, eclodiu-se no Recife uma revolta de caráter Constitucionalista no qual, foi afixado nas pontes do Recife e pelo bairro da Boa Vista, um panfleto intitulado “um Pasquim”, no qual incitava a população para revoltar-se contra o Imperador D. Pedro I através de uma marcha armada que teria início em Afogados (bairro do Recife), seguindo para a Vila de Santo Antão (atual município de Vitória de Santo Antão) no qual ali seria formado um governo republicano.

Da Vila de Santo Antão a revolta ganhou adeptos de várias comunidades do território pernambucano. E em fevereiro do citado ano, uma coluna armada seguiria para Buíque onde se encontraria com vários outros rebeldes para constituir um grupo armado ainda maior.

No curso da ação, tiveram êxito em Bezerros, desarmaram pessoas, conseguiram voluntariados e ampliaram o poder de fogo. A notícia se espalhou e chegou ao Comandante interino da Vila de Buíque: José de Albuquerque Cavalcante, às três horas da madrugada do dia oito de fevereiro de 1829; no qual enviou uma correspondência para o Capitão-mor Manoel José de Siqueira, alegando tomar conhecimento do ocorrido e estar preparado para enfrentar os inimigos.

“[…] não contarão com a mesma vantagem nesse Termo se cá chegarem. Já mandei notificar a gente, como V.S. me de termina para com a presteza, que urgente o caso se achar no meu Quartel, onde fico esperando as Ordens de V.S. com melhores informações para minha guia”. (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1829)

Na madrugada de 18 de outubro de 1832, um homem conhecido por Themoteo, liderando um grupo com cerca de 150 a 200 homens que incluía entre eles, vários indígenas Jacuípes; cruzou o território buiquense, longe do acampamento da resistência local. Os invasores foram descobertos por um piquete há poucos metros de distância que reagiu à presença inimiga abrindo fogo. No início do embate, alvejaram um dos constitucionalistas da coluna invasora e um dos soldados do piquete acabou sendo ferido. A ação durou pouco tempo. Alguns dormiam naquele momento e ao despertar muniram-se para abrir fogo enquanto outros fugiram caatinga adentro, entre desertores do embate estavam o Capitão José Joaquim Ferreira, do distrito de Palmeira e Francisco Borges do distrito de Corrente, além de 24 praças da Companhia de Quiridalho de Cimbres e 14 da Companhia do Panema.

Com a deserção, os inimigos saquearam alguns itens, deixando morto o Alferes da Companhia do Panema após oferecer resistência por duas horas e trinta minutos. Além do Alferes, morreram outros dez homens e ficaram 16 feridos e duas mulheres feridas (desses, seis em estado grave). Destes morreram dois homens e uma das mulheres. O capitão Manoel Leite de Albuquerque saiu levemente ferido. E no lado inimigo, ficaram nove mortos.

Movimentos Constitucionalistas do Século XX

Em 1922, vários militares protestavam com pedidos de melhorias em vários setores sociais. Exigiam escolas públicas, cobravam por direitos trabalhistas e a liberdade de imprensa, resoluções anticorrupção e o voto secreto. Esse período de protestos militares é conhecido como Tenentismo. Dois anos depois, surgiria a Primeira Divisão Revolucionária liderada por Luiz Carlos Prestes, Siqueira Campos e Juarez Távora.

No ano de 1926, o tenente Cleto Campelo (que dá nome a uma Rua em Buíque; antes a Rua do Cavalo Morto, citada no livro Infância, de Graciliano Ramos) organizava a formação de um exército pernambucano que deveria juntar-se à Coluna Prestes que acampara em Buíque, de onde seguiriam para Arcoverde. Campelo pretendia juntar-se à Coluna e incluir Lampião e seu bando na luta com apoio do Padre Cícero do Juazeiro.

Integrantes do Partido Comunista vinculados à maçonaria fizeram parte do movimento. A exemplo de Epifânio José de Bezerra, liderado por José Caetano Machado – secretário geral do comitê Nordeste.

As cidades de Arcoverde, Buíque e Pedra tinham por chefia: Francisco Cavalcanti de Albuquerque Jé (Chico Jé); Ernesto Alves de Queiroz e Francisco Ferreira de Santana eram as lideranças de Alagoa de Baixo; Em Floresta, o coronel João Novaes; em Afogados da Ingazeira: Elpídio do Amaral Padilha; Flores, Bom Nome, Serra Talhada e São José do Belmonte tinham a liderança do coronel João Lucas de Carvalho; Triunfo: o coronel Carolino de Siqueira Campos e João Barbosa; São José do Egito, com Pedro Pais de Lira e Petrolândia com Manoel Vítor.

Cleto Campelo tentou sem sucesso fazer a tropa local (Recife) rebelar-se contra o Governo. Como castigo, foi transferido de Pernambuco para o 6º Batalhão de Caçadores em Goiás. No caminho, passando pelo Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista ao Correio da Manhã que resultou em um mês de prisão.

Ao encontro da Coluna Prestes

Em 1926, Cleto encontrava-se exilado na Argentina, viajou em secreto para Recife-PE, no qual pretendia montar um grupo de revolucionários que acabou sendo denunciado pelo Comando da 7ª Região Militar. Assim, em 18 de fevereiro daquele ano, apoderou-se de um trem na estação ferroviária de Jaboatão-PE, juntamente com o sargento Waldemar de Paula, Severino Cavalcante (marinheiro) e treze civis. Além disso, mais quarenta funcionários da ferroviária aderiram a sua investida. O destino era Buíque, onde ele e sua tropa armada se encontrariam com a Coluna. Porém, em Gravatá-PE, acabou sendo fatalmente atingido por um disparo acidental, dado por um de seus homens destreinados, durante um assalto à cadeia daquela cidade. A maioria dos “soldados” desertou enquanto outros 30 homens prosseguiram sob a chefia do sargento Waldemar de Paula que acabaram rendidos e degolados por jagunços do coronel Chico Heráclio (Francisco Heráclio do Rêgo) que posteriormente fora dono da fazenda Carié em Buíque, adquirida em 1941.

A marcha pelas cercanias de Buíque

Uma carta enviada pelo Major Ary Salgado Freire em 1926, direcionada a seu General, descreve alguns fatos ocorridos durante a marcha feita por seu destacamento:

Sr. General.

                 No dia 16 de fevereiro, na povoação de S. Caetano, recebi ordem de, com uma parte do 2º Destacamento, fazer uma marcha para o litoral de umas 20 léguas mais ou menos.

Saí da referida localidade no mesmo dia 16 e neste dia atingi a fazenda denominada Carmo, tendo passado em Maravilha e na povoação de Samambaia. No dia 17 continuei a marcha até a povoação Brejo do …………. que fica a 9 léguas da cidade de Buíque e a 22 de S. Caetano. Marchei ainda neste mesmo dia em direção a Alagoas e pernoitei a 2 léguas da vila de ………….

Dia 18 ocupei essa vila e marchei em procura da coluna. Dia 19, no lugar da Lagoa …………. tive um pequeno encontro com uma força inimiga, tendo ficado ferido um soldado.

Dia 20 ocupei a vila de S. Francisco e efetuei a travessia da força para o outro lado do rio Pajeú e no dia 21 atravessei para o lado de cá, em virtude da ordem recebida da coluna.

Neste mesmo dia, reuni-me com a coluna, tendo pouco antes, no lugar Cipó, o inimigo atacado minha retaguarda. Neste encontro tive um morto e um ferido, cujos nomes já foram publicados em boletim.

Cachoeira, 21 de fevereiro de 1926.

Ary Salgado Freire,  Major

(LIMA, 1979, p.592)

Mil e quinhentos homens aguardaram por quinze dias a vinda de Cleto Campelo. Acabaram seguindo, cruzaram o São Francisco e chegaram à Bahia. Tomaram cidades e povoados; enfrentaram soldados do exército, jagunços e cangaceiros. Lampião havia recebido a patente de capitão, armas e dinheiro para combater a coluna, mas nada fez contra os revolucionários que apesar dos constantes atritos à bala, seguiram vitoriosos aos ataques até dissolverem a Coluna em fevereiro de 1927, na Bolívia. Não foram capazes de assumir o governo. Alguns dos que voltaram para o Brasil, foram perseguidos pela repressão, outros permaneceram na Bolívia.

A revolta de 1930

Apesar do desmanche da Coluna Prestes. O estado de revolta entre brasileiros não havia acabado. A Coluna havia ganhado grande prestígio popular, servindo de inspiração para o surgimento duma nova mobilização iniciada em 1929, quando Getúlio Vargas decide se candidatar a presidência do país.

Tal mobilização resultaria na Revolução de 1930. Getúlio Vargas aparece como líder revolucionário, depondo Washington Luís e impedindo a ocupação da presidência por Júlio Prestes – último presidente eleito pela República Velha, em 1º de março daquele ano.

Sem o apoio popular, a mobilização promovida pelo Partido Comunista (conhecida por Intentona Comunista), acabou por findar-se em 1935. O revolucionário Carlos Prestes acabou sendo preso no ano seguinte, permanecendo até 1945.

Possivelmente o distanciamento de Buíque da capital, bem como o apoio de algumas lideranças locais por famílias contrárias ao Império e posteriormente, às medidas indesejáveis da República Velha, tenha feito do lugar um ponto relativamente seguro para os grupos libertários. Não se sabe os nomes dos apoiadores buiquenses àqueles movimentos. Contudo, se por motivação política, religiosa; ou ambas, o nome “Buíque” surge como refúgio ou ponto de apoio durante as tentativas não consolidadas de conquistar o Brasil, fosse derrubando o regime imperialista pelo advento da República ou boicotando a própria república em busca de melhorias.

 


Referências:

  • DIARIO DE PERNAMBUCO. Documentos, 1º. Nº254, p.1017, 24 nov 1829.
  • DIARIO DE PERNAMBUCO. Artigos de Oficio. Comando das Armas. 05 nov 1832.
  • CAVALCATI, Paulo. Da Coluna Prestes à queda de Arraes: Memórias Políticas. Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), 01 de jul de 2015, 458 fls.
  • ANRJ: Correspondência dos presidentes da província – Interior. IJJ9, 245, fls. 287-322.
  • LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes (Marchas e Combates). São Paulo, Editora Alfa-Omega, 3ª edição, 1979. p.592
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Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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