Vigário João Inácio de Albuquerque

Em 1878, João Inácio de Albuquerque veio à Buíque exercer a função de Vigário da Paróquia de São Félix de Cantalice, trazendo consigo toda sua família, vindos da cidade de Cajazeiras-PB. Quatorze anos depois, tornou-se o primeiro prefeito de Buíque, completando dois mandatos: o primeiro de 1892 a 1895 e o segundo de 1901 a 1904. Homem de grande influência religiosa e política na cidade. Era sempre visto com senhoras idosas, parentes do mesmo.

O Vigário era visto como pessoa de boas referências para a maioria dos cidadãos, menos para as crianças. A exemplo do menino Graciliano Ramos, que anos mais tarde tornaria um dos maiores escritores brasileiros e publicaria um dos livros de maior importância para o município, intitulado “Infância”. Obra que revela em detalhes, aspectos da cidade e as pessoas que vivam nela, inclusive do Vigário João Inácio – homem sério, grosseiro, exigente e desbocado. Contudo, respeitado por todos por sua representação religiosa e natural influência política.

“Padre João Inácio não sabia falar conosco, sorrir, brincar – e as nossas almas se fecharam para ele. Em padre João Inácio, homem de ações admiráveis, só percebíamos dureza” (RAMOS, 1981, p. 42).

A face carrancuda de sobrancelhas encontradas, olhar de superioridade envolto em mistério, quase sempre evitado por cabeças baixas e servis, gerava um grande receio nas pessoas, talvez pela lembrança de constantes reclamações e resmungos que somado àquele olho cego e inexpressivo, fazia de sua imagem, um símbolo de soberania sobre os gentios.

“Tínhamos, porém, razão para temer aquele homem tenebroso por fora e por dentro. Não ria. O olho postiço, imóvel num círculo negro, dava-lhe aspecto sinistro”. (RAMOS, 1981, p. 40).

Na época, o Vigário, atendia os enfermos da varíola, doença temida na Vila. Tanto que os cidadãos queimavam excremento de boi e creolina sobre cacos de telhas para afugentá-la. O povo tinha medo das injeções, mas o vigário com sua autoridade, fazia-os furar os braços de todo jeito. Os paroquianos reclamavam em surdina, da falta de dedicação do Padre aos cultos na igreja.

Atrito com o Major França após reforma da Capela de São Sebastião

Com a ajuda da população, o Vigário promoveu uma reforma de ampliação da Capela de São Sebastião (sede). No dia de sua reinauguração, o Major França colocou uma faixa na frente da capela com os seguintes dizeres: “Construída pelo Major França Monteiro”. Tomando conhecimento da ação, o Vigário mandou retirar de imediato tal faixa, substituindo-a por outra que dizia: “construída com a ajuda do povo”. Isso causou certo desconforto entre ambos, tendo em vista que ambos eram grandes influenciadores políticos de oposição. Com o passar do tempo criou-se a falsa crença de que a capela teria sido criada pelo Vigário por conta dessa última reforma. Contudo, é sabido que quando da chegada de João Inácio a Buíque, a capela de São Sebastião já existia. Cabendo atribuição de sua construção favorável ao Major França.

Grosserias do Vigário

Uma das célebres cidadãs buiquenses – a professora Dona Dodoce, tratava o Vigário João Inácio por ‘‘Tio Padre’’. Isso, porque o Vigário era irmão de sua madrasta. Ela conhecia de perto algumas feitas do homem arrogante com fama de “pavio curto”. Chegando a citar algumas com um de seus filhos: Adelson Carvalho – cidadão buiquense que compartilhou dois acontecimentos breves envolvendo o antigo vigário e primeiro prefeito da cidade:

Trem em Buíque? Não!

A rispidez do Vigário era tão expressiva em face e comportamento que por intermédio do mesmo, Buíque saiu da lista das cidades contempladas com a passagem da linha férrea que ligaria Recife ao sertão do Estado. Sabendo de tal inclusão, o Vigário viajou ao Recife para solicitar que a linha passasse pelo Campo dos Bredos – como era chamada a região da futura cidade de Rio Branco – atual Arcoverde.

A justificativa em não permitir a passagem da ferrovia era a de que os trens contaminariam a cidade com doenças e prostitutas. Seu ‘protecionismo’ acabou retardando o desenvolvimento local. Buíque era na época, uma das cidades mais produtivas do agreste meridional.

E apesar de querer “proteger” a cidade dos males dos grandes centros. Sua atitude não impediu a vinda das prostitutas, tampouco das doenças que adiante assolariam o município em vários períodos.

Um certo cachorro

Houve o dia em que um moço vindo da zona rural, foi até a casa do vigário, levando consigo, um peru debaixo do braço. A ave seria um presente para o Vigário.

O rapaz, chamou e bateu à porta. Porém, ninguém apareceu. Tendo visto a janela aberta, sem nenhuma má intenção, pulou para deixar o animal. Contudo, no mesmo instante, aparece o Reverendo que dirigindo-se a outra pessoa que estava na casa, ordenou: “Abra a porta e dê passagem ao cachorro que acabou de pular a janela”. Desconfiado, mas talvez conhecendo o temperamento do Vigário, o rapaz deixou o presente e partiu.

Tromba de porco

Certa vez, um cidadão convidou o Vigário para almoçar em sua casa. Após muita insistência, o convite foi aceito. À mesa havia uma tirrina (recipiente onde se coloca um caldo ou molho especial para acompanhar a comida em porções.

Durante o almoço, o vigário parou de comer e observou o anfitrião servir-se do molho da única tirrina à mesa, usando a mesma colher que levava comida à boca. Sem demora, bravejou o vigário a um serviçal: “Traga outro recipiente com molho porque este aqui, o porco enfiou a tromba dentro!”.

***

Cachorro e porco, dois animais que para o Reverendo figuravam bons insultos contra as pessoas que o desagradavam. Graciliano Ramos, no livro infância revela:

“Padre João Inácio tinha muito de Frei Clemente: não chegava a açoitar os paroquianos, mas, se se aperreava, distribuía insultos aos pequenos, raça de cachorro com porco. Esse desacato era proferido com energia e gritos, fora do púlpito, pois não consta que Padre João Inácio haja pregado”. (RAMOS, 1981, p. 32).

SOBRE O AUTOR

Publicitário, especializado em Comunicação Empresarial. Interessado em turismo de aventura, história, cultura, ciência e artes. Nas horas vagas, dedica-se a leitura, pesquisas, registros fotográficos e audiovisuais envolvendo Buíque e o Parque Nacional do Catimbau.

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