Buíque - Quilombolas Mundo Novo

Qual a definição de quilombo?

Quilombo é um termo de origem bantu para designar uma espécie de acampamento realizado por guerreiros na mata. Em 1740, o Conselho Ultramarino define como quilombo qualquer habitação composta por negros fugidos em número superior a cinco indivíduos, mesmo que não houvesse ranchos erguidos ou qualquer outro sinal de habitação.


 

Holandeses, novos cristãos e escravos fugidos no Façola e Mundo Novo

Quando os Novos Cristãos vieram para Pernambuco acompanhando os holandeses, parte deles seguiu para Bom Conselho, onde em 1630 se organizou um quilombo conhecido por Quilombo Pedro Papa-Caça (atual Quilombo Angico). Em 1645 o quilombo foi desarranjado e os holandeses fixaram uma colônia no local. Quando da expulsão dos holandeses em 1654, permaneceram ali algumas famílias.

Outra parte dos holandeses e judeus veio para Buíque, fixando-se na área pelo qual batizaram de Sítio Mundo Novo. Alguns deles eram membros da família Carvalho e acabaram atraindo famílias de novos-cristãos para a localidade, estes se diziam conversos, mas continuavam a praticar o judaísmo às escondidas, distante do julgo dos católicos e da perseguição portuguesa. Porém, em constante vigília. Os Camelos e Almeidas que ainda residem no Mundo Novo, são também descendentes de famílias cujas origens estão relacionadas ao judaísmo. Outro grupo de holandeses e judeus fixaram-se entre as Serras do Catimbau, com maior concentração desses na área conhecida como Serra do Coqueiro.

O Façola e Mundo Novo eram lugares seguros para os fugitivos. Ali, descendentes de judeus praticavam sua fé distante da vigilância católica e os escravos fugidos tinham a liberdade que lhes fora tirada. Ninguém se atrevia a ir buscar escravos fugidos na Serra do Mundo Novo, que ficou conhecida como “Serra da Torrada” ou se quer no Façola onde primeiramente espalharam-se. Para esses indivíduos, ali era o mais próximo que poderiam experimentar da liberdade perdida, embora permanecessem escravos das condições climáticas em períodos de seca e escassez. Tiveram de contornar a fome e a sede.

Façola

A região do Façola foi tida como referência para escravos fugidos. Fazendeiros locais os acobertava. Eram majoritariamente abolicionistas, tendenciosos ao advento republicano, descendentes ou praticantes do cripto-judaísmo. Caixeiros viajantes eram bons informantes e apontavam o local como refúgio de escravos nos engenhos por onde passavam. Um ato feito com muita discrição.

Com o tempo iam chegando mais e mais homens e mulheres fugitivos, vindos de Palmares e cidades próximas. O Façola era um paraíso, a morada da esperança, a terra que tinha um lugar chamado “Mundo Novo” onde a rigidez dos fazendeiros brancos era mínima diante daqueles que não enxergava a humanidade de seus servis. Os fazendeiros, ao cederem-lhes a liberdade tirada nos engenhos, conseguiam mão de obra via escravidão voluntária; não havendo risco de rebeliões ou ataques. O modelo adotado era semelhante ao imposto pelos brancos europeus durante a Alta Idade Média.

Buíque - vegetação - Mundo Novo

Mundo Novo

A Serra da Torrada e suas adjacências literalmente “torravam” no verão. No inverno, alimentava a esperança de dias melhores; espantava-se a fome, tirando-lhes das costas o peso do sofrimento dos meses de estiagem, no qual vagavam pela caatinga em busca de caça. Os mais velhos não se deixavam enganar, sabiam que após o tempo farto e enevoado, o calor extremo voltaria.

Façola

A região do Façola foi tida como referência para escravos fugidos. Fazendeiros locais os acobertava. Eram majoritariamente abolicionistas, tendenciosos ao advento republicano, descendentes ou praticantes do cripto-judaísmo. Caixeiros viajantes eram bons informantes e apontavam o local como refúgio de escravos nos engenhos por onde passavam. Um ato feito com muita discrição.

Com o tempo iam chegando mais e mais homens e mulheres fugitivos, vindos de Palmares e cidades próximas. O Façola era um paraíso, a morada da esperança, a terra que tinha um lugar chamado “Mundo Novo” onde a rigidez dos fazendeiros brancos era mínima diante daqueles que não enxergava a humanidade de seus servis. Os fazendeiros, ao cederem-lhes a liberdade tirada nos engenhos, conseguiam mão de obra via escravidão voluntária; não havendo risco de rebeliões ou ataques. O modelo adotado era semelhante ao imposto pelos brancos europeus durante a Alta Idade Média.

Faz-se importante saber que antes de se tornar escravos, homens e mulheres vindos de várias localidades da África tiveram de trilhar uma grande odisseia cujo prêmio a ser merecido era a própria vida. Muitos não conseguiram e acabaram sendo deixados para trás.

Para compreender a luta vivida pelos antepassados que constituíram o quilombo do Mundo Novo é preciso voltar um pouco mais no tempo…

A grande travessia

De acordo com a base de dados americana Atlantic Slave Trade, aproximadamente 5,7 milhões de escravos teriam saído de Angola entre 1501 e 1866. A igreja Católica funcionava como uma espécie de banco, articulando o tráfico de escravos. A igreja do Carmo de Luanda, Capital da Angola, foi construída durante o século XVII. Os angolanos passaram a ser comercializado após a queda da moeda local, o zimbo. Tendo conhecimento de que a prática era desumana e contra os princípios cristãos, para amenizar a prática, a igreja pretendeu evangelizar os escravos transformando-os em cristãos a serviço da igreja. Assim, tinham escravos próprios enquanto outra parte era vendida para os europeus.

 

Buíque - Correntes

Após o desembarque

Não havia tratamento médico para a população de homens, mulheres, crianças e idosos, entre eles reis, rainhas, princesas, guerreiros e famílias inteiras que começavam a perder alguns de seus entes ainda na África, quando faziam a separação dos entes e amigos, e depois nos navios quando adoeciam ou morriam para novamente serem separados em terra firme.

A escravidão foi um regime desumano, fragmentado pela dor, pela escassez e a tortura sob inúmeros aspectos. Para os escravos não havia opções além de cumprir a vontade de seus senhores e sinhás, ficando à mercê de toda sorte de violências e maus tratos.

Houvera os que preparavam e comiam bolinhos de barro umedecido que os enfraquecia resultando na morte certa. Aos que perseverassem, restava-lhes a servidão vitalícia. Espíritos guerreiros protestavam com rebeldia, pondo em risco a própria vida ou diante de força maior, fugiam para os confins mais longínquos que pudessem alcançar. Guiados pelos instintos e para longe de seus inimigos. A paz e a liberdade era uma efeméride; conviviam com o medo num constante estado de alerta até se verem novamente perseguidos, violentados e em fuga. Esse era o destino dos que optavam por viver selvagemente.

Os povos de pele escura não eram conceitualmente humanos para os brancos. Eram produtos, máquinas em carne e osso limitadas à servidão, com valor de compra avaliada nas condições físicas e alguns saberes.

No Recife, os escravos desembarcados eram tratados pelo local de origem: Angico, Angola, Congo, Gabão, Rebolo e Moçambique. Poucas famílias vieram juntas nos navios negreiros. De Angola, os que conseguiram desembarcar, chegavam a condições de total imundice, fediam a ponto de causar náuseas àqueles que não estivessem acostumados com tamanha fedentina. Receando o risco de contágio por doenças, os novos escravos chegados à cidade eram encaminhados para o bairro de Santo Amaro, no Recife. Retornando à cidade com alguns dias – regra que nem sempre era cumprida – a pressa dos negociantes encurtava o tempo da quarentena.

Apesar de a maioria haver sido separada de seus entes. Alguns grupos estabeleciam nova identidade familiar durante a travessia. O grupo de indivíduos que se identificavam tratava uns aos outros como “malungos” – algo próximo a “irmão”. Na cidade, eram deixados às portas de seus futuros senhores. Eram deitados em aproximadamente duzentas ou trezentas pessoas, ficando esses deitados ou sentados às portas, seminus.

Os homens trazem em torno da cintura, uma tira de fazenda azul, que passam por entre as coxas e amarram atrás; as mulheres, um pedaço de pano maior que usam a maneira de saia, e algumas vezes dão-lhe outro para cobrir a parte superior do corpo”. (BARBALHO, Nelson. p.189, 1893)

A dieta concedida aos escravos compunha-se de feijão, farinha e carne salgada – por vezes serviam-lhe bananas. O preparo ocorria em grandes caldeirões ali mesmo na rua. Ao escurecer seguiam para as portas dos armazéns, aguardando a abertura das portas ao raiar do dia para serem vendidos. Raros vendedores, identificando uma família inteira, vendia-a somente se fossem comprados todos juntos. Em infeliz comparação, podiam ser vendidos em forma de quites.

Dali partiriam para os engenhos, fazendas, sítios ou residências. Um grande contingente seguia para Palmares e de lá ocorreriam várias fugas e embates.

A fuga de Palmares

A vida dos escravos era uma luta constante pela sobrevivência, a obediência era a única e imprevisível certeza para continuarem vivos e livres dos castigos. Antonio Martiniano Beserra esteve em Palmares-PE. Mas saiu de lá com alguns outros escravos e chegaram às terras do Façola em Buíque. Na época, uma das referências apontadas como local seguro para escravos fugidos.

Antonio foi por muitas vezes castigado no engenho em que viveu. Seu comportamento manifestava a audácia de um guerreiro livre que não aceitava a condição da escravidão. Porém, mesmo após conquistar sua liberdade, os traumas vividos seriam levados consigo para o resto da vida. Perdurava em sua mente inquieta o temor pela volta dos maus-tratos recebidos.

Sair daquele lugar em busca da liberdade era seu maior desejo, do qual compartilhava com indivíduos de sua confiança no qual descobriram ser parentes. Eram primos de Antonio: os irmãos Chico Caetano e Lourenço Caetano e outro primo chamado Félix Caetano. Os laços familiares os aproximaram. Contudo, a descrição era fator crucial entre eles. Portanto, aproveitaram as poucas chances que tinham de ficarem próximos para traçar o plano de fuga.  Conversar durante o trabalho não era permitido. Caso contrário, sujeitavam-se a severas punições. As conversas eram murmuradas durante a construção de casas ou armazéns.

Conheciam bem a rotina do lugar e onde encontrariam resistências. Antônio Martiniano liderou pequeno grupo com quatro integrantes. Foram perseguidos e rápidos o suficiente para não serem alcançados. Seguiram pela caatinga, numa viagem de grandes desafios em poucas pausas até chegar às terras do Fasola. O local era apontado como destino seguro para escravos fugidos, parte da família dos Caetanos encontrava-se ali. Outros parentes e amigos foram chegando aos poucos.

Os mais antigos viveram em locas de pedras, a esconder-se dos homens brancos. Conforme foram se consolidando em volume, passaram a construir suas próprias casas. Saindo do topo da Serra para as partes mais baixas.

No Façola, Antonio conheceu e casou-se com sua prima Cândida Beserra da Silva, irmã de Chico e Lourenço Caetano. Com ela foi morar na parte alta do Mundo Novo, aos pés da Serra da Torrada. Ali surgiria a família Antunes Beserra. entre outras famílias que originaram o quilombo Mundo Novo.

Reconhecimento

Em 2018, a área em que vivem os descendentes de africanos escravizados foi certificada como remanescentes de quilombo pela Fundação Cultural Palmares (FCP), com atribuição: Quilombos Sítio Mundo Novo e Façola, pela Portaria n°203/2018, de 17/08/2018 (processo: n°01420.008719/2015-03).

Resolução de Tombamento: Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: […] § 5º Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. | Fonte: Constituição Federal de 1988.

Buíque - Samba de Coco - Quilomboas Mundo Novo

Manifestações Culturais

Samba de Coco

Nas comemorações de independência (7 de setembro) e emancipação política da cidade (12 de maio), as mulheres são comumente convidadas para animar o festejo com danças de ciranda. Sempre cantadas em coro e puxadas geralmente por duas mulheres, o ritmo é compassado pela batida dos pés contra o chão e o público costuma entrar na roda para apreciar a brincadeira. As canções foram ensinadas pelos mais velhos; não usam nem produzem instrumentos.

Cirandas improvisadas ocorrem na sede quando há convidados, a realização de algum evento ou atividade de caráter beneficente.

Com o envolvimento das Associações Comunitárias do Mundo Novo e da Secretaria da Mulher do município de Buíque, o Grupo de Samba de Coco intitulado “Resgate da Alegria”, têm participado de vários eventos dentro e fora do município, levando sempre a energia, a graça e a força da dança ancestral que se manteve preservada e encanta a todos os espectadores. É comum ver gente de fora entrando na roda, fazendo as pisaduras do samba e se divertindo com a contagiante manifestação.

Buíque - Quilombolas Mundo Novo - Capoeira

Capoeira

Antônio Martiniano viveu em Palmares, terra de onde surgiu a capoeira, luta exclusivamente brasileira, criada pelos então escravos que disfarçavam com suas acrobacias dançantes, a prática de uma luta marcial. Sem dúvida, uma das mais bonitas e que esteve incutida entre os antigos moradores da região. Acabou enfraquecendo, mas resiste entre os poucos que praticam a arte dessa luta acrobática embalada pelo som do berimbau.

Buíque - quilombolas - alimentação

Alimentação

Os alimentos típicos da comunidade são o xerém e o cuscuz oriundos do milho cultivado na comunidade e moído num antigo moinho de pedra. Incluindo o beiju e a tapioca feitos com a massa de mandioca.

Zabé Insoisa

Em tempos de escassez extrema buscava-se como alternativa para saciar a fome, uma espécie de batata selvagem não cultivada e nascida naturalmente na localidade. Essa batata também é conhecida por alguns como “cambadinha”. Quem dela se alimenta – dependendo da quantidade ingerida, pode acabar se embriagando ou indo à óbito por intoxicação. No passado muitas pessoas morreram por confundir o tubérculo com a batata doce.

O tubérculo (Zabé Insoisa) era evitado por todos e quem o ingerisse, sentiria irritação no entorno dos lábios, resultando numa descamação da pele (ressecamento). “Quem come a zabé insoisa fica com a boca “despelada” – conclui Josefa Antunes.

A caça

A caça é pouco praticada, mas em épocas de seca prolongada, vira alternativa para as famílias que vivem em condições precárias. Entre os animais caçados estão o teiú (teju), o camaleão e o cassaco (o mesmo que timbu, espécie de gambá da caatinga).

O café de caco

Trata-se do café comum, contudo os grãos eram torrados num caco – nome dado a um tacho de lata levado ao fogo de lenha e que servia como panela. Após torrados os grãos eram transformados em pó num pilão para depois servir.

Na época em que trabalhavam com fabrico de farinha, havia plantações de café em terras próximas. O café era trocado por vassouras produzidas pelos Antunes Beserra ou pela lenha coletada no mato.

Lá no Mundo Novo, as mais velhas quando tomavam café não falavam com ninguém por causa do vento. Colocavam a mão na boca… E eu dizia: Ah meu Deus!”. – comenta Severina Tereza ao recordar sua descrença sobre o que diziam.

Os mais antigos passavam de um dia para o outro sem lavar as mãos ou tomar banho; diziam que o corpo estava quente (referência ao processo de torra, pelo tempo que haviam passado próximo ao fogo). Severina diz nunca ter seguido essa prática. Mas reconhece que o café de caco era e é um café forte e perigoso.

O fabrico de farinha de mandioca

A mandioca quando em ponto de colheita, era coletada, raspada e ensacada para ser carregada no lombo de jumentos. Ao mesmo tempo, outros levavam sobre os animais, sacos de lenha que seriam usadas para queimar a casa de farinha. Quando a colheita era farta, o excesso era levado em baldes ou sacos de náilon. Todos realizavam a mesma jornada em seguir pela Serra íngreme até chegar do outro nado, no Farsola, onde a farinha seria fabricada.

No processo de produção da farinha, as mulheres preparavam o beiju. A fome de alguns não aguardava o ponto certo de cozimento e assim se serviam do alimento ainda quente. O calor intenso os fazia beber água abundante e da mistura entre o beiju quente (com massa ainda mole) e a água, acabavam entrando em estado de embriaguez. Havia quem reclamasse de incômodos estomacais.

O Fubá e o Xerém

O Fubá é uma farinha de milho fina, ralada em moinho de pedra, assim como a massa do xerém. É um alimento rico, servidor em pó e misturado com outros ingredientes à gosto. Comumente misturam com o açúcar que dá sabor singular a iguaria, também é servido misturado com mel, podendo ser usado também no lugar da farinha de mandioca.

Já o Xerém tem os flocos mais grossos e o processo de moagem, junto ao preparo em panelas de barro e fogões à lenha, dão um toque especial a seu sabor que por padrão é servido acompanhado por carne de galinha de capoeira (criada no terreiro).


O presente material é parte duma pesquisa realizada pelo autor deste site (Paulo César Barmonte). Se por ventura o conteúdo for usado noutra plataforma, veículo de mídia impressa ou digital, deverá conter nome do autor, endereço da página e data em que o conteúdo foi acessado. Aqui são reveladas parte da história da Comunidade dos Remanescentes Quilombolas do Mundo em Buíque-PE. O material na íntegra será publicado em livro (em curso) com informações inéditas contendo letras de antigos sambas de coco, rezas, uso de ervas medicinais, crendices e simpatias, lendas, a relação com as famílias de fazendeiros adjacentes, entre outros elementos de resgate que mantém viva a memória, cultura e arte preservada na comunidade do Mundo Novo e Fasola.


Referências:

  • BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana: Subsídios para a História do Agreste e do Sertão (1811- a 1917). vol. 11, fls. 330, 1983.
  • BARMONTE, Paulo César. Entrevistas concedidas por Josefa Antunes, Zilda Antunes, Zenilda Beserra, Albertino José (in memorian), Zuleide Panta (in memorian) e Severina Tereza no Mundo Novo (datas alternadas não informadas aqui).

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