Mata nativa preservada – uma das poucas em Buíque

Na queimada de São Bento, próximo ao povoado do Tanque, em Buíque-PE. O agricultor Hidelbrando Bezerra de Andrade Filho, que atende pelo apelido “Neném”, mantém um pequeno santuário verde em sua propriedade. Lá são encontradas várias espécies de árvores nativas. Entre elas, a ameixa, a baraúna, o angico, a aroeira, quixabeira, barriguda, bom-nome, catingueira, carcará, jurema, sabiá, unha-de-gato e, cactos como o rabo-de-raposa, mandacaru, coroa-de-frade e xique-xique, quipá, palmatória e uma variedade de arbustos.

Desmatamento

A madeira de árvores duras, é comumente procurada para a produção ilegal de carvão ou pilhagem de estacas para o feitio de cercados. Árvores de madeira macia, são procuradas para produção de peças de artesanato. No entanto, os artesãos locais aproveitam apenas madeira de árvores mortas. Com o passar dos anos, as áreas de campos improdutivos têm aumentado e o clima seco é a justificativa para a infertilidade do solo de algumas regiões onde antes era mata.

Infelizmente, para a maioria dos agricultores essas árvores, arbustos e até mesmo cactáceas, são consideradas inúteis. Ignora-se o fato de proporcionar maior fertilidade ao solo pelo mantimento do ciclo biológico natural entre espécies de animais e plantas. Como resultado da extração indevida, ocorre um desequilíbrio que somado à outras práticas, proporciona o agravamento da erosão do solo e a alteração da sensação térmica local que aos poucos, com as ações humanas, altera o microclima das áreas desmatadas.

Sítio Hidelbrando Filho - Angélicas, Buíque-PEO clima da região é lembrado pelos antigos, quando do período de fartura há algumas décadas, em que a estação chuvosa garantia fartas colheitas de algodão, feijão, milho, pinha, mandioca, caju, entre outros. Com o passar dos anos a abundância foi diminuindo e isso se deve, principalmente a crescente extração de árvores nativas. Atualmente é comum o preparo da terra para o plantio de palma – usada para alimentar o gado nos tempos de estiagem. O sistema de agricultura predominante é o familiar (de subsistência) e poucos são os setores em que há áreas preservadas como esta.

Mata nativa: bons resultados à saúde do solo

O terreno possui 29 hectares e 30% dele (na serra) é arborizado, lá o gado pasta livremente entre árvores. Há algumas décadas o lugar era usado inteiramente para o plantio de palma; Hidelbrando pai, passou para seu filho caçula “Neném”, a responsabilidade sobre aquelas terras. Este último, permitiu que a parte da serra crescesse e isso trouxe bons resultados à saúde do solo que retém maior humidade graças ao enraizamento profundo das árvores; ao sombreamento das folhagens e a adubação natural do solo.

Nos períodos de estiagem severa, sua “mata particular” acaba por sofrer menos danos que os terrenos de propriedades próximas. Neném, compreende o quão é importante a preservação da vegetação local para manter a fertilidade da terra e reduzir a sensação térmica sentida nos horários e períodos mais quentes. Momento em que o gado busca refúgio e alimento pelos cimos da serra.

“As árvores na serra deixam o solo mais úmido, reduz o impacto do sol sobre a terra no período mais quente. Quando toda área resseca, os terrenos vizinhos já estão praticamente queimados.” – Hidelbrando filho.

O Cerrado é o segundo maior bioma do país e a Caatinga é exclusiva do Nordeste brasileiro, ambos (biomas) ainda pouco estudados acerca de seu verdadeiro potencial medicinal, alimentício e natural. Na caatinga ocorre grande riqueza de endemismos (surgimento de espécies de plantas e animais únicos no mundo). Porém, a maior ameaça desse bioma advém do mau uso do solo e pela degradação do meio ambiente – na maioria das vezes – resultante da falta de conhecimento sobre preservação, conservação e manejos adequados para o uso da agropecuária com menor impacto e maior sustentabilidade.

Fonte: Entrevista com Hidelbrando Bezerra de Andrade Filho | Imagens: Barmonte.

SOBRE O AUTOR

Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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