Catimbau – um nome de muitas histórias

Catimbau é um termo que pode ser encontrado sob várias definições e está presente em várias regiões do território brasileiro. No entanto, apesar de aparecer nos dicionários como sendo de origem tupi, a palavra é de origem africana e como algumas outras palavras, pode ter sido incorporada ao tupi antes do descobrimento do Brasil ou durante o Brasil colônia, quando da formulação do nheengatu (tupi: nhe’eng ‘língua’ + katu ‘bom’) – a língua boa que também ficou conhecida como: língua geral.

O Nheengatu foi criado pelos missionários jesuítas que durante a colônia, aldearam vários grupos indígenas para que fossem estudados, catequizados e socializados. A língua foi fundamentada por termos comuns encontrados nos vários dialetos oriundos do tupi falado no Brasil. Sendo descartados termos singulares a cada língua. Também anexaram à língua as regras da gramática portuguesa. E por fim, diante da ausência de alguns termos, incluíram à língua, termos de origem portuguesa e espanhola.

Do Tupi-antigo ao Nheengatu

O tupi antigo foi falado até o final século XVII, depois transformado para a língua geral – o nheengatu. Formando-se a partir do Maranhão e Pará, com base na língua falada pelos tupinambás e indígenas de outras tribos, aldeados pelos jesuítas – os primeiros a estudar, traduzir o tupi antigo, transformando-o na língua geral.

O nheengatu foi amplamente difundido no período colonial, chegando a ser a mais falada em território nacional. Seu objetivo era facilitar a comunicação entre colonizadores, indígenas e escravos, através dessa língua, também chamada de língua brasílica.

Foi a língua mais falada no Brasil por dois séculos até ser proibida pela coroa portuguesa, através do Marquês de Pombal no século XVIII – a proibição também pode ser compreendida como o período oficial duma nova perseguição indígena, agora em função da língua que deveria ser banida em detrimento da adoção da língua portuguesa como a oficial. Nesse período, o nheengatu era falado desde o Maranhão à fronteira com o Peru.

Os povos indígenas passaram a ser vigiados e perseguidos, não podiam falar a “língua proibida”. Estavam fadados a abandonar o que restara de sua língua mãe. Assim, o convívio com outras pessoas que falavam o português, a necessidade de comercializar produtos em virtude da perda de espaço cada vez menor para os indígenas, entre outras necessidades, fizera com que a língua fosse morrendo aos poucos, conforme despediam-se da vida os anciãos nas aldeias e jovens perseguidos e mortos em confrontos, até chegar ao ponto em que a língua se extinguiu por completo da maioria das aldeias. Contudo, felizmente a língua não morreu e continua em uso no coração da floresta amazônica, por tribos que resistiram melhor às consequências do colonialismo.

No início do século XIX, o nheengatu já não era mais falado em São Luís e poucos falavam a língua em Belém do Pará – locais onde tudo começou.

Em 07 de abril de 1831, D. Pedro I abdica do trono em favor de seu filho e segue para Portugal. Pedro de Alcântara, futuro D. Pedro II é ainda muito jovem e o Brasil passa a ser governado por regentes. Os próximos 9 anos do período regencial foram bastante conturbados. Surgiram movimentos republicanos e até separatistas, os mais significativos foram a Sabinada, na Bahia (1837-1838), a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul (1835-1845) e a Cabanagem, no Pará (1835-1840) que teve por consequência a morte de 30 mil caboclos e indígenas sem tribo. Assim, a língua geral perdera grande quantidade de falantes naquela insurreição.

Até 1877 a língua era a mais falada no Amazonas (até mesmo por não índios), tornando-se secundária devido às migrações ocorridas durante o ciclo da borracha. Muitos nordestinos, inclusive indígenas já aportuguesados, em virtude da escassez provocada pela seca no agreste e sertão, seguiram em grande volume até a região para trabalhar nos seringais, levando consigo a língua portuguesa que passou a ser predominante na região.

Catimbau: origem africana ou indígena?

Catimbau aparece em algumas fontes como sendo de origem tupi e significando “cachimbo pequeno apagado”. Beaurepaire Rohan concorda que o nome tenha origem tupi, sendo essa a corruptela de “cax-imbó” (atualmente grafado como cachimbo).

Nelson Senna diz haver dois vocábulos à parte: Catimbau e Catimbó, sendo este último originado de caa-ty-mbora – significando: mato que cheira ou exala, que solta vapor (ou fumaça?).

Rodolfo Garcia admite a possibilidade de o termo ter origem africana, podendo vir da língua quechúa, com base no termo “katimpuy” – que se traduz por: aquele que devia ter ficado atrás.

No Chile a palavra aparece significando “vestido de palhaço”. Abordagem comparativa a algo que pareça ser brega, estranho ou engraçado.

De acordo com Alfredo de Carvalho, a grafia correta é catimbao e vem do tupi: caa-tin-imbai – significando: mato branco e ruim.

Levando em consideração que comunidades negras se estabeleceram em quilombos e tiveram contato direto com etnias indígenas, no qual acabaram trocando experiências, principalmente pela comunicação simplificada pelo advento do nheengatu.

A maioria das definições encontradas para a origem do termo catimbau ou catimbó, está vinculada ao ato ritualístico, pelo baixo espiritismo que tem por símbolo comum o uso do cachimbo e que aparece com igual representação em dialetos bantos; levando a crer que o termo realmente tem origem africana.

De acordo com Lima (2012), a palavra Catimbau é de origem africana e provém dos bantos. Sendo estes, povos da África sul-equatorial que falam diferentes idiomas. Porém, derivados duma mesma língua original.

Os bantos correspondem a um grupo étnico que habita a região da África do Sul, no deserto do Saara. Existem mais de 300 subgrupos e estes sobrevivem da agricultura, caça e pesca. Atualmente, os bantos habitam países localizados, entre eles: África do Sul, Angola, Lesoto, Namíbia, Moçambique, Quênia, Zâmbia e Zimbábue.

O cachimbo é uma ferramenta comum nos ritos de comunidades africanas e indígenas, e por isso, carrega em si a simbologia mística que estabelece a associação direta ao termo “catimbau” enraizado por seu significado de origem: “a prática da magia”, adequando-se à cultura indígena por equivalência ao curandeirismo ou à pajelança.

O termo acabou sendo integrado ao tupi. E com o passar do tempo ganhou novos adjetivos e pronúncias, emaranhando seus significados de tal forma que criou a confusão acerca de sua verdadeira origem: africana ou tupi?

Vale considerar que a disposição de palavras inspiradas do tupi original para o nheengatu, sofrem várias modificações – que apesar de ter como base o tupi antigo, regrou-se pelas normas da gramática portuguesa, potencializando a combinação entre termos que possibilitam um misto de combinações fáceis de apresentarem resultados aparentemente conclusivos sobre a origem de palavras sob a ótica do tupi.

A isso, faz-se necessário, ir além da semelhança fonética, anexando embasamentos extras, por meio de outras evidências que reforcem a probabilidade do que é defendido.

Outras palavras derivadas do termo: Catimbau

Da palavra Catimbau, deriva Catimbó (oriunda dos bantos), que segundo o dicionário Houaiss, significa: “culto de feitiçaria que combina elementos da magia branca europeia com elementos negros, ameríndios e católicos; liderado por um ‘mestre’ que defuma os assistentes com seu cachimbo, e a quem se recorre para resolver problemas diversos, seja para o bem, seja para o mal; catimbau, catimbaua (…)”.

Com o culto religioso praticado por africanos e também indígenas nos locais remotos aos grandes centros urbanos, o termo também acabou sendo atribuído aos habitantes de zonas rurais, representados pelo termo “caipira” (aquele que tem pouco convívio social, pouca instrução, hábitos e modos rudes).

A rudeza do homem do campo, quando comparada ao estilo de vida do homem da cidade, rotulava ao primeiro o caricato generalizado de uma pessoa maltrapilha, feia ou ridícula. O que justifica outra derivação: catimbui – que caracteriza um indivíduo que esteja fedendo ou com mau hálito. Catimba é outra palavra “prima” e significa astúcia, manha com intenção de enganar ou iludir, enfeitiçar.

Do período colonial ao idos do término da escravidão no Brasil, muitos africanos escravizados fugidos de Palmares-PE e outras regiões próximas, viram Buíque como rota de fuga segura e passaram a viver em quilombos. Dos remanescentes, até 2020 apenas uma dessas comunidades tivera o devido reconhecimento: a comunidade do Mundo Novo. Houveram quilombos também na área abrangente do Parque Nacional do Catimbau, nas proximidades de algumas aldeias onde vivem o povo indígena kapinawá.

O termo “Catimbau” que batiza o distrito buiquense e o Parque Nacional local, é um fragmento linguístico oriundo dos povos africanos que conviveram com indígenas. Contudo, o termo encontrado em dialetos bantos, encontrava-se enraizado no tupi. O que sugere duas hipóteses: Ou a palavra foi trazida por africanos e incorporada ao tupi, antes do descobrimento ou fora inserida pelos jesuítas, quando na formulação do nheengatu.

O termo também nomeia várias localidades dentro e fora do Estado de Pernambuco. Em Custódia-PE, há um distrito chamado Quitimbu, a semelhança com Catimbau não é fruto do acaso. Trata-se de uma variante fonética, de mesmo significado. Portanto, rotulada erroneamente como sendo de origem tupi.

No Rio de janeiro, ao Norte da ilha de Paquetá, existe a “praia do Catimbau” – área em que habitaram indígenas conhecidos como tamoios. No Rio Grande do Sul, na cidade de Alegrete, há um bairro chamado Catimbau. A palavra também nomeia ruas, propriedades rurais e empresas.

E se a palavra Catimbau, entre outras, tiver sido introduzida no tupi antes do primeiro contato com os europeus?

Gaoussou Diawara – historiador malinês, realizou várias pesquisas sobre o império de Abubakari II, com resultado das pesquisas escreveu um livro intitulado “A Saga de Abubakari II … Ele partiu com 2000 barcos”. No livro, Diawara descreve que em 1311, Abubakari abriu mão de seu posto e fortuna, ficando o irmão em seu lugar. Kankou Moussa passa a governar o império africano de influência islâmica.

Abubakari partiu acompanhado de centenas de barcos para desbravar o outro lado do Oceano Atlântico, sob a crença de que como o rio Níger que cortava seus domínios, o oceano atlântico também tinha um “outro lado da margem”. Sua esquadra levava nas embarcações, várias famílias e gado. As embarcações teriam partido da região onde hoje é litoral da Gâmbia.

Abubakari teria obtido êxito e com isso chegado à América 181 anos de Cristóvão Colombo, pelo território que corresponde ao Brasil – 189 anos antes da chegada de Pedro Álvares Cabral, aportando na costa de Pernambuco, onde hoje é o Recife.

Tiemoko Konate foi o coordenador da equipe de pesquisas feitas em Mali sobre o antigo império de Abubakari. Segundo ele, o nome “Pernambuco” é uma versão do nome dado à região de extração de ouro de Boure Banbouk, de onde originou-se a maior parte das riquezas daquele império.

Outras teorias e estudos em andamento apontam a possível presença de outros povos, com datações ainda mais antigas. O que leva a crer que a América e o Brasil foram, na verdade redescobertos várias vezes.

Interessante. Mas, o que isso tem a ver com a palavra Catimbau?

Não há nada que afaste a possibilidade de africanos terem visitado a América ou Brasil antes de Cristóvão Colombo e Cabral. Aliás, há estudos que apontam a presença de outros povos em terras sul-americanas. O continente africano viu o nascer e o findar de grandes impérios, alguns deles mantinham vasta experiência em navegações.

As visitas náuticas ocorridas no período cabralino podem ter influenciado várias culturas indígenas, é possível que tenham ocorrido miscigenações e, em termos linguísticos: a adoção de termos trazidos por povos africanos. O que explicaria a presença de palavras com fonemas semelhantes e com significados equivalentes, presente em culturas de origem africana e indígena que seguiram presentes na formulação do nheengatu.

A palavra catimbau, certamente é de origem africana e acabou se fazendo presente também no nheengatu. Talvez pelo contato entre indígenas e negros durante a colonização; talvez tenha sido incluída no nheengatu pelos jesuítas. Mas não se pode descartar a possibilidade de estar presente entre os indígenas há mais tempo do que se possa imaginar.

Referências:

  • MELO, Mario. Catimbau ou Catimbó? Jornal Pequeno. n136, ano XXIX, 1927.
  • LIMA, Emanoela Cristina. A Toponímia Africana em Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos). Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. 215f, 2012.
  • MENDONÇA, Renato. A influência africana no português do Brasil. Apresentação de Alberto da Costa e Silva, prefácio de Yeda Pessoa de Castro. ─ Brasília: FUNAG, 2012. 200p.
  • HOUIASS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. 3.0.
  • BBC Brasil. Livro diz que africano descobriu a América. Publicação eletrônica em 14 de dezembro de 2000. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2000/001214_explora.shtml. Acessado em: 16/07/2020.
  • NAVARRO, Eduardo de Almeida. O último refúgio da língua geral no Brasil. Estudos Avançados, n26, v76, p. 245-254. 2012.

SOBRE O AUTOR

Publicitário, fotógrafo e pesquisador da história buiquense.

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