Sadabi – Meu Rei

Sadabi – Meu Rei

Cícero José de Farias, nascido em Garanhuns-PE a 13 de setembro de 1884. Teve sete irmãos, todos filhos de João Manoel de Farias e Maria Aurélia de Gericó. Em 1932 foi morar em Arcoverde-PE, era proprietário de uma empresa de secos e molhados. Porém, no dia 13 de janeiro daquele mesmo ano – uma revelação mudaria sua vida para sempre.

Aconteceu que, mês de janeiro, eu às 11 horas da noite já tinha dormido um sono; me acordei; fui olhar uma mercadoria que tinha no telhado debaixo de um muro. Aconteceu que quando saí fora do muro, olhando o ar, o alto, a Via Láctea das estrelas, entre as estrelas mirim, uma brilhava mais que as outras. Eu fiquei admirado com aquele planeta e achei que aquele planeta, ele tava crescendo, porque em proporção em que eu admirava o planeta, o planeta foi crescendo. Eu senti que a irradiação do planeta tocou no meu eu. Eu tive medo, quis voltar para dentro de casa, não pude, fiquei estado; também não estava sentindo nenhuma coisa mal e observei que o planeta vei baixando, vei baixando. Quando se foi assim como o tamanho da lua cheia ou uma laranja grande, transformou-se no rosto de Jesus, a cidade, o claro da cidade, ficou de maneira um claro alvo-azulado, que o claro desapareceu, a luz elétrica desapareceu. Bem, desceu aquela entidade corpo celeste, puramente Jesus. E desceu solto. Então, quando aproximou-se de mim, em cima de um monte – eu estava na cidade e o monte assim vizinho ao lado nascente da cidade. Ele desceu em cima do monte […] então aconteceu que eu falei com Jesus; Ele falou comigo. Antes que eu falasse com Ele, Ele foi quem falou comigo […] Era em forma telepática. Aquilo vinha direto. A fala dele entrava no meu eu, no meu pensamento e minha fala também para Ele não era com a boca aberta. Eu transmitia em forma telepática a sistema de perguntas que eu Lhe fiz pelo tombem ao que ele me propôs uma missão:

– Tens missão a cumprir. Não nasces-te para ser romano – respondeu Cristo.
– Senhor, que missão? – indagou Cícero.
– Você tem missão dada por Mim. É a missão da cura – respondeu Cristo.
– Senhor, eu não sou farmacêutico, não sei curar, não conheço essas coisas. Eu trato de comércio – continuou Cícero.
– Cristo, por sua vez, replicou: Cura em meu nome.

Depoimento de Meu Rei, segundo BUENOS AYRES, 1994.

Após a missão supostamente dada por Jesus, e sob o consentimento de sua mãe. Cícero deixou sua família para dar cumprimento a sua missão. Nascia ali um dos grandes ícones messiânicos do sertão do Moxotó.

Em 1952, na Serra da Borborema, Teixeira-PB. Deus teria aparecido ao profeta, ordenando-lhe a construção de uma cabana que deveria ser circundada por 2 círculos feitos de madeira. Assim, com lápis e papel nas mãos, Cícero escreveu atentamente o que lhe fora ordenado:

– De agora em diante teu nome não é mais Cícero José de Farias e sim Israel. E tens missão a cumprir. E a tua missão é para preparar um povo para guardar para entrada do terceiro milênio um começo de civilização. Um povo que não jogue, não beba, que não brinque carnaval; um povo eu não mate gente; um povo que não jogue jogo de espécie nenhuma; um povo que guarde respeito pelos animais, que não sacrifique o carneiro, o boi, o caprino, etc. É essa sua missão.

– Senhor, e essa, esse pessoal como fica, aonde vou guardar? É fora, é no campo, é em cidade? Onde é? – pergunta Cícero.
– É dentro de uma pedra – respondeu Deus.
– Bem, Senhor, como é que eu abro essa pedra pra guardar esse povo? – indaga Cícero.
– Esse local, esse lugar, essa fonte, ela já está aberta. Falta você encontrar que é dentro de uma caverna na serra; tirar o entupimento de areia e você vai ficar para tratar de guardar esse povo – respondeu Jeová.
– Senhor, e quando ao causo da missão, tem sucessor? – pergunta Cícero José Farias.
– Não! A missão que lhe dou não tem sucessor. É por todos os seus dias. – responde Jeová.

BUENOS AYRES, 1994.

Cícero passou a liderar uma comunidade constituída por 42 famílias adeptas à sua ordem messiânica. “Meu Rei”, assim era chamado por seus seguidores.

Em 1960, Meu Rei fundou sua primeira comunidade milenarista em Campina Grande. Em 1965 – fundou a segunda comunidade milenar em Puxinanã (cidade vizinha). Perseguições religiosas fizeram com que Cícero migrasse para localidades diferentes até que em 1976, criou a terceira e definitiva comunidade na Serra dos Bréus, em Buíque-PE, onde permaneceu até o final dos anos 90. Nesse período, instituiu sua nova ordem no qual do Brasil surgiria a civilização do novo milênio a partir da Fazenda Porto Seguro.

A fazenda também era chamada de Reino Adâmico ou “Base de Segurança Nacional” que deveria servir como um retiro destinado ao aperfeiçoamento espiritual daqueles que desejassem alcançar o Terceiro Milênio. Meu Rei teve dois filhos, mas estes não moravam com pai.

Em 1987, quando aos 104 anos – Deus-Pai teria enviado 3 forças energéticas de sua Essência Divina para o corpo mortal do profeta. Passados 9 anos, os efeitos dessa transferência, tornaria Meu Rei o primeiro homem imortal da terra. Assim, em 13 de maio de 1996, ocorria seu novo batismo: Dali em diante sua nova identidade era Sadabe Alexandre de Farias Rei.

Fazenda Porto Seguro

A água abstratosa

A missão de Meu Rei visava instaurar um novo reinado na terra, tendo como marco zero desse reino, a Fazenda Porto Seguro, em Buíque-PE. Lá, construiu uma edificação com três andares que abrigava o profeta e alguns jovens adotados. No subterrâneo de seu palácio, era mantido um poço que fazia minar a “água abstratosa”. Essa água especial era comercializada aos visitantes e dita como água da juventude – preparada por Meu Rei que dizia esta conter o substrato de Deus-Pai e por isso, encerrava em si o poder de prolongar a vida e aniquilar todas as doenças.

Haviam muitos seguidores dentro e fora de seu domínio adâmico. Por vezes, apareciam romeiros em busca da água abstratosa. Alguns eram devotos de Padre Cícero do Juazeiro e assemelhavam um ao outro. Outros vinham em busca de cura espiritual ou de enfermidades físicas, crentes no potencial milagroso da misteriosa água.

Estabelecendo diálogos pela análise do campo energético

Estabelecer diálogo aprofundado com profeta dependia de análise prévia do profeta acerca do campo energético (aura) do visitante. Se identificada uma “frequência positiva”, compatível com a do profeta – o mesmo, compartilharia seus ensinamentos ao visitante.

Segundo ele, um novo tratado feito com Deus, teria gerado uma nova trindade que originaria o reinado da nova era. Na fazenda Porto Seguro, não haviam cultos ou qualquer tipo de celebração. Os ensinamentos eram passados durante reuniões com os seguidores ou sob atendimentos individuais.

A construção da nova civilização representava a negação da sociedade como a conhecemos. Resultando assim, na formação de uma sociedade reinventada sob os alicerces da nova trindade espiritual e sua perspectiva organizacional sócio-política e religiosa destinada aos iniciados.

Vários documentos constituíam seu código ético-religioso que buscava validar a legitimidade de sua liderança como representante divino na terra e sua comunidade como povo escolhido.

“Deus vai recomeçar o mundo de glória no seu reino aqui na Serra dos Bréus. No tempo do dilúvio houve um julgamento para a geração adâmica, e de Noé a Cristo não houve mais julgamento. Deus sempre falou a este mundo através de seus confidentes, bem como, Abraão, Moisés e Cristo. Porém, agora vim, desci das alturas, estou na terra como soberano, senhor de tudo que existe no universo. Eu sou Jeová o pai de Jesus Cristo. Eu vim para dar cumprimento ao bem, criar o reino de Deus aqui na Fazenda Porto Seguro, um Novo Paraíso.”

FARIAS, 1993, Apud. QUIRINO, 2011, p. 85

Economia

A economia da comunidade era basicamente a plantação de mandioca e produção de farinha que era comercializada externamente.

Moeda local

A moeda nacional não circulava na comunidade. Para isso, fora criado o “Talento” – a moeda do reino divino que seria implantada no Brasil após a chegada do Terceiro Milênio. Era comum que os visitantes comprassem cédulas como souvenir e todas estampavam ao centro a face do líder religioso.

A despedida

O grande líder construiu seu domínio adâmico por 23 anos, criou uma sociedade alternativa em pleno século XXI, mas no dia 13 de janeiro de 1999, às 23h:45min, morria Cícero José de Farias, Israel, Meu Rei e/ou Sadabe aos 115 anos. O homem tido como imortal, despedia-se do mundo terreno, deixando uma legião de seguidores, todos pegos de surpresa.

É sabido que alguns diante de perplexa descrença de sua morte, questionavam: Como pode um imortal morrer? Tudo que haviam aprendido, os ideais e os sonhos duma sociedade perfeita; o poder da água abstratosa e tudo que tornava viva a mística em torno do profeta, morria junto com ele. Alguns ainda acreditaram no seu retorno. Mas o tempo passou e várias famílias abandonaram seus lares, retornando a sociedade do qual pretendiam abster-se.

Seis meses após a ida de Meu Rei, o nascimento de um menino na comunidade fez com que um de seus seguidores cogitasse que a criança seja a reencarnação do antigo líder e que em algum momento manifestará sua missão em dar continuidade a missão do Meu Rei. Contudo, a maioria dos antigos iniciados não creem nessa afirmação. Sadabi não deixou sucessor e a terra daquela Vila foi doada em Cartório para Deus-Pai.

O presente número 13

Uma curiosidade salta no enredo da história de Cícero: a frequente presença do número 13 em datas decisivas que marcavam uma nova fase em sua vivência: o dia de seu nascimento, de sua primeira visão, o dia em que teria adquirido a imortalidade e o dia de sua morte.

No contexto esotérico, a carta 13 do tarô é representada como a carta da morte, mas não significando exatamente morrer e sim, o encerramento de um ciclo que consequentemente, dá início a outro. Talvez, a imortalidade de Sadabi tenha sido mal interpretada. A morte é para todos, só não é sabido se viver a imortalidade em seu devido plano é algo que todos haverão de desfrutar.

O novo milênio, ao contrário do que pensavam os habitantes da Fazenda Porto Seguro, trouxe o fim da sociedade almejada por eles e seu profeta. E, embora alguns tentassem preservar seus ensinamentos, a sociedade como a conhecemos hoje, diluiu a mística daquele lugar, restando apenas a lembrança dos dias que se foram.

Vídeo sugerido:

Fontes:

QUIRINO, Priscilla P. Meu Rei: a imortalidade no Sertão do Moxotó. Serra dos Bréus, Buíque-PE, séculos XIX-XX. Recife: UFPE, Monografia, 2008.

QUIRINO, Priscilla P. Meu Rei e a construção do paraíso. Recife: UFPE, dissertação (mestrado em história), 2011.

BUENOS AYRES, Carlos. Bréus, serra onde Deus habita, berço de uma nova civilização: um movimento messiânico-milenar em gestão no Nordeste (Buíque-PE). Dissertação de Mestrado em Antropologia. Recife: UFPE, 1994.

Sobre o autor

Publicitário, fascinado por ecoturismo, turismo de aventura, natureza, música e pintura.

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