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Minérios buiquenses – da prata ao urânio

Minérios buiquenses – da prata ao urânio

Os minérios buiquenses carregam consigo a sombra de um grande potencial econômico para o município, principalmente pela presença de metais pesados como o urânio e o tório, usados em várias áreas do campo tecnológico e na produção de energia nuclear.

As minas de prata

Em 1534, as terras dos Campos do Buíque passaram a fazer parte da Capitania de Pernambuco, representada por Duarte Coelho. Oitenta anos depois (1614), sertanistas adentravam o interior do Estado pelos sertões do Ararobá – região do rio Ipanema, em busca das minas de prata, no qual circulavam rumores de haverem sido encontradas.

Em 1698, o fazendeiro Lopo de Albuquerque da Câmara, encontrou em sua propriedade, próximo ao Rio São Francisco e Barra do Ipanema, mandou fincar uma cruz num morro daquela propriedade, quando encontrou um elevado padrão de pedra, logo derrubado. Embaixo, uma laje de pedra preservava a seguinte inscrição:

“Minas de prata que descobriu neste lugar no ano de 614 que a seu tempo saberá S.M. delas”.

Lopo, subtendeu que ali estavam as minas. Cavou a terra em vários pontos e num deles encontrou uma parede de tijolos endereçando a localização das ditas minas de prata. Tendo viajado até o local, trouxe amostras do minério e os levou a conhecimento de S.M (Sua Majestade) que através do secretário Mendo de Foyos Pereira obteve autorização para romper as minas. Assim, partiu novamente para o local com um escravo e na volta – há dois dias de casa – acabou sendo picado por um animal peçonhento e faleceu.

Lopo tivera 3 filhos: Nicolau Aranha – que teria enlouquecido; Matias de Albuquerque – que se tornou clérigo e Francisco de Albuquerque – o único interessado em dar continuidade à exploração das minas descobertas pelo pai.

Francisco, tentou fazer com que o escravo que acompanhou seu pai, servisse como guia até as minas. O escravo aproveitou o ensejo para negociar sua liberdade em troca da revelação. Francisco o puniu com a morte. Mesmo assim, alcançou êxito na busca, quatro anos depois. A terra das minas eram os Campos do Buique.

As minas de salitre

O salitre foi a primeira descoberta geológica encontrada em abundância nos Campos do Buique. O minério era essencial para a fabricação de pólvora e foi explorado exaustivamente pelo império Português. Foi em função da extração do minério que vieram para a região as primeiras famílias que adiante, povoariam a Vila que daria origem a Buíque.

Em dezembro de 1700, o governo da metrópole ordenou que o governador da capitania, Caetano de Melo Castro, mandasse estabelecer em Buíque uma fazenda pastoril e fosse criado um aldeamento com oitenta casais indígenas recrutados coercitivamente e terras necessárias para cultura. O aldeamento era controlado pelo governo da Capitania. Assim, deveriam eleger um capitão-mor para governar e levar quantidade suficiente de animais para execução do serviço de mineração e mantimento dos aldeados. O salitre foi o primeiro dos minérios buiquenses que se tem notícia, a ser explorado.

“Iniciados os trabalhos de exploração das minas de salitre do sertão do Buíque, logo afluiu uma corrente de operários e especuladores, desbravaram – se terras e abriram – se caminhos para os centros de exploração do minério, e daí a construção de barracas para o alojamento de toda essa gente e a criação de autoridades locais para a sua garantia e boa ordem”. (PEREIRA. 2012, p.321)

Uma publicação feita em 1846, no jornal “O Lidador” – descreve sobre a abundância do salitre buiquense: “[…] e no Buique he tal a qualidade de salitre, que o povo o apanha as mãos para os seus usos”.

A 13 de agosto de 1909, o Jornal do Commercio publicava uma nota sobre explorações feitas no interior de Pernambuco, no qual o Engenheiro de Minas J. Back, comissionado pelo Estado comunicou ao respectivo governador os achados geológicos encontrados em várias regiões, mas colocando em ênfase a grande serra de Buíque. Back trouxe consigo amostras de ferro e outros metais que afirmava existir em abundância.

Em 1920, era publicado no Jornal do Recife a seguinte nota sobre a descoberta de minérios em Buíque e região: “Tivemos ensejo de ver hontem amostros de amiantho, salitre e cobre, das minas cituadas em Alagôa de Baixo, Buique, e Rio Branco, neste Estado. Dizem os competentes serem estas minas as mais ricas da America. As amostras que vimos nos foram trazidas pelo srs. Cunha & C. que celebraram contracto para a extracção dos minérios com o coronel José Estrella de Souza”.

Resquícios do salitre na fazenda do Brejo

A noroeste de Buíque, ergue-se um maciço montanhoso, conhecido como Serra do Coqueiro e Serra de São José. Abaixo está o brejo de São José com aproximadamente 6km de extensão – trecho em que apresentava maior incidência de salitre após a extração massiva do período colonial. A parte inferior do paredão possui uma faixa vermelha oriunda da limonita com 20 ou 30m de espessura. É nessa faixa em que no ano de 1923, localizava-se o salitre em eflorescência.

“Um homem extrahe por dia de 50 a 60 kilos de terra salitrosa. Soccam e lavam com agua fervendo num cocho ajuntando areia grossa ou carvão para facilitar a dissolução. E’ a destilação chamada. […] Concentram as aguas de lavagens num tacho de ferro. Fazem ferver diversas vezes tirando as impurezas que sobrenadam com uma espumadeira. Concentrado o liquido deposita-se primeiro o sal commum, passam um coador e, filtrado, pelo resfriamento, deposita o salitre crystallisado. Este vae ao sol para seccar; e as aguas decantadas soffrem segunda evaporação para depositar nova porção de salitre”. – ¹Diario de Pernambuco (1923).

A fazenda do Brejo, pertencia ao Coronel Felix de França Monteiro, na década de 20, a matéria-prima não era suficiente para obtenção de lucro pela instalação de uma grande fábrica para a cristalização do nitrato de sódio daqueles depósitos.

Em 1923, o Diario de Pernambuco publicava matéria sobre a extração de nitrato de potássio na lagoa do Puiú, na época, território buiquense, hoje pertencente a Ibimirim. Porém, dentro das mediações do Parque Nacional do Catimbau.

Descoberta de vários afloramentos de Urânio

Em 1954, um técnico da UNESCO visitou em 1 ano, vários Estados da região Nordeste para pesquisar e coletar amostras de minerais existentes nas mediações do polígono das secas. As amostras visavam a criação de um dossiê sobre possíveis pontos apropriados para extração de fins econômicos. O geólogo Aubert De La Rue informou que as ocorrências minerais apontavam apenas indícios de minério e que não haviam minas produtivas. Os indícios superficiais incluíam grafite, ferro, manganês e urânio. Entre Buíque e Petrolândia, afirmou existir bons depósitos de gesso.

Em 1961, um estudo havia revelado a existência de minério de urânio na Bacia do Tucano, na Bahia. Também na Bahia e em Pernambuco, uma cada sedimentar revelou a presença de Carnotita, minério formador dos grandes depósitos do Colorado, nos EUA.

Em 1963, técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear, chefiados pelo geólogo Kazuo Fuzihawa, encontraram 15 afloramentos de urânio em terras buiquenses com abrangência de aproximadamente 20m². Os minérios buiquenses sempre causam surpresas a cada descoberta. Foi o que ocorreu com os geólogos pernambucanos e o presidente da Comissão, Marcelo Damy, viajou até o Recife em busca de estabelecer convênios com universidades e instituições científicas estaduais para ampliar os estudos acerca da descoberta.

A SUDENE se predispôs a colaborar com o trabalho de extração do urânio, desde que houvesse um convênio entre a mesma e o Conselho Nacional de Energia Nuclear, objetivando a intensificação dos próximos trabalhos geológicos a serem realizados em Buíque.

Declaração de Aleyone Rocha – diretor substituto da divisão de geologia da SUDENE ao jornal o jornal Última hora: “Se a verba for aplicada, racionalmente – prosseguiu – é possível que se obtenha ótimos resultados em Buíque. […] O urânio, como material radioativo, trará grandes benefícios à economia não só do Estado como de todo país, neste momento em que existe grande desenvolvimento no programa geológico brasileiro”.

A descoberta do Caulim no Catimbau

Em 1970, Sebastião de França Cavalcanti, intrigado com os aspectos de algumas rochas existentes nas terras de Cícero Ferreira Ramos, chamou o amigo para uma conversa, incentivando-o a procurar o Instituto Tecnológico de Pernambuco para averiguar as pedras que o Sr. Cícero usava para preparar uma espécie de tinta para pintar a própria casa. Contudo, o dono daquelas terras não deu importância a primeira instância. Sebastião tornou a insistir e atendendo ao pedido do amigo, Cícero procurou o Instituto que, após análise, constatou tratar-se de caulim da melhor qualidade.

Pouco tempo depois, empresas recifenses especializadas na extração de caulim, passaram a fazer a extração do material, pagando 70 centavos por tonelada e duzentos cruzeiros novos pelo frete dos caminhões que transportavam uma média de 8 toneladas. As terras onde estavam as minas pertenciam à família Ramos, que em sua maioria, residia nas mediações do Catimbau.

Depósitos minerais de tório

Em 2018, um mapeamento feito pelo Serviço Geológico brasileiro (CPRM), apontou a presença de tório (usado na produção de energia nuclear em Usinas). A descoberta pode significar importantes mudanças na região. Tendo em vista o valor econômico que o minério é capaz de proporcionar. Elevados teores de tório no solo são associados a presença de monazita – mineral castanho-avermelhado e que geralmente ocorre em forma de pequenos cristais. As áreas que apresentam os depósitos minerais foram batizadas de Folha Buíque, se estendem por Buíque e seus distritos: Carneiro, Catimbau e Guanumby além do povoado do Tanque; e também por Itaíba, Jirau, Salgadinho, Negras e Tupanatinga (sede) e seu distrito Cabo do Campo.

“Temos uma ocorrência de ouro na região, o que oferece novas opções para os interessados prospectarem” – Maria Angélica – pesquisadora em geociência do CPRM no Recife.

A possibilidade de retorno financeiro diante do que foi encontrado pela CPRM é alta. “O que destacamos lá foi a presença da celestita, um mineral que está presente na tecnologia, e é usado para dar coloração verde aos equipamentos tecnológicos” – Gleysson de Almeida Lajes – Geólogo da CPRM.

Fontes:

O lidador. n.102, p.2, Recife, 17 de abril de 1846.

Jornal do Commercio. 13 de ago. 1909.

Jornal do Recife. Riquezas de Pernambuco. Anno LXIII. n.267, 28 de set. 1920.

¹Diario de Pernambuco. Os depósitos de salitre de Pernambuco. n. 223. Anno 103. 23 de set. 1923.

Diario de Pernambuco. Encontrados indícios de urânio de Pernambuco. 13 de abril de 1954.

Última hora. Descoberta de urânio surpreende os geólogos. P.3, 10 de maio de 1963.

Última hora. Marcelo Damy no Recife: Urânio de Buíque é de grande importância. 23 de maio de 1963.

Última hora. SUDENE disposta a colaborar na extração do uránio de Buíque! p.2, 8 de jun. 1963.

Diario de Pernambuco. Interêsse de matuto leva à descoberta de jazidas de minerais em Buique. Primeiro caderno. 12 de maio de 1970.

AZEVEDO, Cidinaldo Buíque de Araújo. Campos do Buíque – Suas Terras, Sua Gente. 1991.

PEREIRA. José Gerardo Barbosa. Pernambuco após a Restauração: Da unidade ao conflito. In: Sociedade, elites e poder em Pernambuco no século XVII. P. 301-433 – Tese (doutorado). História e Cultura do Brasil, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2012.

FOLHA DE PERNAMBUCO. Estudo indica o potencial mineral de Pernambuco. Folhape. 24 de outubro de 2018. Disponível em: https://www.folhape.com.br/economia/economia/geral/2018/10/24/NWS,85328,10,478,ECONOMIA,2373-ESTUDO-INDICA-POTENCIAL-MINERAL-PERNAMBUCO.aspx | Acessado em: 04 de março de 2019.

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Sobre o autor

Publicitário e pesquisador da história buiquense, interessado em artes plásticas, natureza e turismo de aventura.

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