Jararaca – o cangaceiro santo

Jararaca – o cangaceiro santo

Natural de Buíque-PE, nascido em 05 de maio de 1901. José Leite de Santana serviu ao exército brasileiro em Sergipe, porém, desertou por ter participado da insurreição militar contra o comando do quartel em que servia. Sua personalidade violenta, rendeu-lhe o apelido de Jararaca entre os cangaceiros. Porém, é sabido de momentos em que o cangaceiro demonstrou-se piedoso. Ezequiel Ferreira, irmão mais novo de Lampião tinha o apelido de Ponto-fino, graças a sua excelente pontaria com a arma. A ele atribui-se a morte do subdelegado e fundador de Canhotinho do feijão – hoje Santa Helena-PB. Lampião puxou um punhal cuja lâmina tinha 75 centímetros de comprimento, com intuito de extrair o filho do morto, do ventre de sua esposa, dizendo querer ver “a cara do filho de um macaco saído das entranhas”. Jararaca evitou que Lampião cometesse essa barbárie.

Esquerda: bilhete enviado por Lampião para o prefeito Rodolpho Fernandes; Direita: Combatentes sobre trincheira feita com fardos de algodão.

Em 12 de maio de 1927, a população de Mossoró-RN, preparava-se para a invasão do bando Lampião que ocorreria no dia seguinte. A notícia foi recebida via telégrafo e lampião chegou a escrever de próprío punho, um bilhete ao prefeito solicitando dinheiro para não invadir a cidade. Em resposta, o prefeito enviou de volta o recado de que não tinha como pagar a quantia solicitada e que a cidade estava preparada para recebê-lo. Os cidadãos que não podiam lutar (crianças, mulheres e idosos) foram transportados para fora da cidade com destino a Areia Branca com ajuda de trens. O plano do prefeito Rodolpho Fernandes que estava em seu segundo ano de mandato, era encurralar o bando, enfrentando-o e evitando assim, que a população fosse saqueada.

Os grupos comandados por Jararaca e Sabino Gório, tentavam assaltar a residência do prefeito (atual sede da chefia executiva municipal), hoje conhecido como Palácio da Resistência. Fardos de algodão (principal produto de exportação na época) protegiam a residência e os principais pontos de defesa no centro da cidade. No meio do tiroteio, o cangaceiro Colchete tentou revidar atirando uma garrafa com gasolina sobre os fardos para incendiá-los, mas foi atingido fatalmente.

Era 13 de maio de 1927 (dia de Santo Antônio), uma forte chuva caiu na cidade, atrapalhando a investida dos cangaceiros. O buiquense José Leite de Santana, vulgo “Jararaca” – durante o tiroteio tentava resgatar o fuzil e demais pertences do cangaceiro Colchete, alvejado com um tiro certeiro partido de um winchester calibre 44. O projétil o esfacelou no meio da praça central.  A autoria do disparo é atribuída a Manuel Duarte, homem de boa pontaria que se encontrava na platibanda da residência do prefeito.

O código de ética dos cangaceiros permitia que se um deles fosse morto, o mais próximo poderia tomar posse de seus pertences. Jararaca arriscou-se e na tentativa acabou baleado pelas costas – pelo mesmo homem que acertara Colchete. Jararaca caiu em forma de cruz sobre o corpo do companheiro. Passados alguns minutos, recobra os sentidos e na tentativa de escapar, recebe outro tiro na perna.

Esquerda: Combatentes no topo da residência do prefeito; Direita: a mesma residência, atual Palácio da Resistência.

Sabino Gório era o homem da vez e partiu para pegar os pertences de Colchete. A atenção de Manuel Duarte (o bom atirador) estava voltada para o novo atrevido; o que fez Jararaca ganhar tempo. Arrastando-se, conseguiu sair da linha de tiro. Sabino, por pouco não foi morto por um tiro que arrancou o chapéu de sua cabeça.

Jararaca, ferido – pediu ajuda aos companheiros Sabino e Massilon. Mas, todos estavam preocupados em proteger suas próprias vidas. Enquanto isso, a volante (policiais) chegava em Mossoró, a mando do Governador João Suassuna e sob o comando do sargento Quelé – conhecido pelo vulgo “Tamanduá Vermelho”.  O combate durou cerca de uma hora e meia. O cangaceiro ferido refugiou-se nas proximidades da estrada de ferro, enquanto o bando de lampião partia em retirada na direção de Limoeiro do Norte-CE.

No dia seguinte, ferido – Jararaca pediu ajuda a um morador que logo chamou a polícia e levou o cangaceiro preso. Na cadeia, recebeu atendimento médico a pedido do prefeito. Um dos soldados da volante do sargento Quelé, quase arranca um dedo do cangaceiro com um punhal por não conseguir tirar um anel de brilhantes – sendo este impedido pelo médico. O cangaceiro capturado lançava palavras de ódio e total desprezo contra a polícia daquela cidade.

Interrogado por um jornalista local – Lauro da Escóssia, informou que Lampião pretendia conseguir 400 contos de réis para comprar a polícia de Mossoró. Perguntaram-lhe ainda sobre os riscos contidos em sua arma – em resposta, Jararaca disse que cada risco representava o número de pessoas que havia tirado a vida. O cangaceiro recebera transferência para o presídio da capital, ordenada por Juvenal Lamartine de Faria. jararaca saiu do presídio de Mossoró às 23h do dia 18 de maio de 1927. Na saída, avisou que havia deixado sua alpercata na cela e em resposta disse o oficial para não se preocupar, pois na capital ganharia um “lindo sapato envernizado”.

Na madrugada do dia 19 de maio o cangaceiro de 26 anos foi levado pela viatura, da delegacia até o cemitério de Mossoró, onde sua cova já estava feita. Jararaca clamou por Nossa Senhora – foi empurrado no buraco sob golpes de coronhadas. Porém as pernas não cabiam no buraco, então quebram-nas a golpe de picareta para em seguida enterrá-lo vivo.

Tempos depois, criou-se uma espécie de romaria no cemitério de São Sebastião que perdura até os dias atuais. Talvez pela forma brutal como foi morto sem ser julgado e por ter clamado a Nossa Senhora pouco antes de morrer – fazendo-se subtender no imaginário popular que teria se arrependido dos pecados cometidos. O túmulo de Jararaca é um dos mais visitados no dia de finados. A igreja de Mossoró, ignora o fenômeno “Jararaca” – pessoas de camadas mais pobres acendem velas à base do túmulo do ex-cangaceiro e torcedores de times de futebol como Botafogo e Corinthians repetem o gesto em agradecimento a vitórias conquistadas pelos times.

Rodolpho FernandesO túmulo do prefeito Rodolpho Fernandes, responsável pela investida que protegeu a cidade contra a invasão do bando de cangaceiros é pouco visitado quando comparado ao de Jararaca. Porém, os cidadãos de Mossoró, reconhecem a atitude heroica do prefeito (natural de Portalegre/RN). Rodolpho tinha saúde frágil, faleceu em 11 de outubro de 1927, quatro meses após a investida e antes de concluir seu mandato. O nome do prefeito foi dado a antiga praça 6 de janeiro, em sua homenagem. Outra homenagem partiu do povoado de São José dos Gatos que pela Lei Estadual nº2763, desligou-se do município de Portalegre e recebeu o nome de Rodolfo Fernandes.

Sob hipótese alguma, alguém imaginaria que a morte de jararaca o levaria para outra margem da história. Assim, o cangaceiro conhecido pelo temperamento explosivo e que recebeu do próprio Lampião o pseudônimo de um animal peçonhento, partiu da insanidade para virar santo em seu próprio mausoléu, na única cidade que expulsou à bala o rei do cangaço e seu bando.

Fontes:

Cardoso, José Romero de Araújo. Notas para a História do Nordeste. João Pessoa: Ideia, 2015. 119p.

Nascimento, Geraldo Maia, 13 de junho de 1927 – O dia em que Lampião atacou Mossoró. Blog do Gemaia. Disponível em: http://www.blogdogemaia.com/detalhes.php?not=945, acessado em: 22.06.2018

Sobre o autor

Publicitário, fascinado por ecoturismo, turismo de aventura, natureza, música e pintura.

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