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Flagelados – o êxodo buiquense causado pela estiagem

Flagelados – o êxodo buiquense causado pela estiagem

Em 1952, uma estiagem prolongada sinalizava as primeiras migrações em paus-de-arara que seguiam para o sul do país. A zona rural buiquense e de várias outras cidades nordestinas estavam ameaçadas pelo despovoamento. No centro da cidade, um serviço de agenciamento criminoso aliciava os retirantes. A grande escassez ganharia proporções inimagináveis no ano seguinte.

Segunda-feira, 02 de fevereiro de 1953 – Mais de duas mil pessoas famintas invadiram o centro de Buíque. Nas calçadas, um verdadeiro mar de gente expressava o sofrimento da grande seca que assolava a região.

A notícia sobre a distribuição de farinha e charque à população mais atingida, alastrou-se entre os camponeses que de imediato abandonaram a penosa dieta de raízes de Ouricuri, mucunã; macambira e caroá (bromeliáceas) para seguir em busca de alimento e água.

Poucos sabiam da gravidade da situação em que viviam os lavradores do município, tanto que a quantidade de víveres disponíveis para doação não abastecia se quer a metade dos pedintes que chegavam aos montes. O estoque oferecido dispunha de 50 sacos de farinha e 2 fardos de charque. Lá fora, mais de duas mil pessoas famintas.

Êxodo buiquense - flagelados da seca

A taxa de mortalidade dos pequenos era alta à época – principalmente nos períodos de estiagem. Quando, na falta de alimento, comiam tudo quanto era erva que encontravam pela frente – algumas delas venenosas, motivo pelo qual muitas iam a óbito. As que escapavam tinham convulsões ou adoeciam. Era comum ter ao menos 5 crianças enterradas numa semana pelos cemitérios da região. Além de Buíque, sofreram também com os impactos da estiagem as cidades de Araripina, Cabrobó, Inajá, Ouricuri, Petrolina, Salgueiro, Serra Talhada e Sertânia.

Um dos flagelados – João Laurindo da Silva, pediu ajuda à equipe do Diario de Pernambuco que fazia apuração dos fatos, depois de atendido, cedeu entrevista, declarando o seguinte:

“Derna de outubro que nói lá em casa não come feijão. Os menino de tanto cumer macambira secaram até morrer. Onte quando nói vinha pra qui buscar comida qui o goveno prometeu, andemo tanto debaixo do sol qui a mulher não guentou e desmaiou na estrada […] eu deixei ela trêis léguas distante do zacaria, incostada num juazeiro. Se ela não vortou pra casa deve está hoje cum Deus”.

Outras declarações sobre os flagelados

“… A alimentação do sertanejo ou do agresteiro está resumida nisto: folha de palma cozida com pitada de sal. Daí porque os acontecimentos recentes de Buíque não surpreenderem a quem acompanha mais de perto o desenrolar do drama da seca. Homens, mulheres, velhos e crianças famintos invadindo um município até há pouco tempo considerado fértil e agora esturricado, o chão batido cobrindo-se de corpos insepultos”. – Waldimir Maia Leite [jornalista].

“… O que aconteceu em Buique, município conhecido pela fertilidade de suas terras e pelo progresso de sua agricultura, é, apenas, um exemplo, do que está acontecendo em todos os municípios e Estados do Norte. Por toda parte, a situação é a mesma, e mesma é a fome dos sertanejos desamparados… E as providências? Tardam demais, e somente aparecem quando tudo está perdido. Quando a situação atinge o limite máximo”. – Cleto Padilha [escritor].

“Felizmente não houve depredações, nem motins. Tudo correu tranquilamente, graças a Deus. Hoje, como o Sr. pode ver, os mendigos, quase todos, já se retiraram para os tabuleiros e caatingas.” – disse Manoel Domingos.

“Nunca vi semelhante acontecimento como o que contemplamos nesses últimos dias. Os mendigos traziam os estômagos às costas e tinham fome de sete dias. Eu mesmo, confesso, tive vontade de telegrafar para as autoridades solicitando providências. Isso porque estava quase a ver, de uma hora para outra, a minha loja invadida. Mais de mil miseráveis desfilaram nesta porta. Graças a Deus pude dar a cada um que me procurava um punhado de farinha”. – Apolônio Cursino, também entrevistado pelo Diario de Pernambuco.

***

Coletoria Estadual - Buíque

Por precaução, a Coletoria Estadual manteve a porta fechada. Os insatisfeitos desfilavam pelas calçadas; criança exaustas e famintas penavam às portas a mendigar e os comerciantes receavam um saqueamento em massa. A sensação era de total angústia e o receio de a qualquer momento ocorrer um estopim.

O comerciante Apolônio Cursino dos Anjos, distribuia alimentos para muitos pedintes, mas a situação apenas se agravava. Quis telegrafar às autoridades do Estado; felizmente não houve necessidade.

Consternados com a situação, os cidadãos que residiam no centro da cidade, contribuíam com algumas cuias de feijão, farinha ou porções de água. Logo formavam-se conglomerados de pessoas maltrapilhas que externavam a fome através de olhares profundos e ligeiros à porta. Eram muitos e batiam os cotovelos uns nos outros, sob certa impaciência a espera da doação.

A escassez no centro da cidade

Os sintomas da escassez no centro da cidade tinham menor impacto em relação a situação dos flagelados. Porém, a água que bebiam era precária (retirada de poços amazonas), sujeita a deterioração de materiais orgânicos e toda falta de sorte advinda de parasitas presentes nas reservas esverdeadas e sem qualquer tipo de tratamento. O município ainda sofria uma epidemia de tracoma. Mais de 48% dos habitantes do centro e 77% da população rural havia sido atingida.

A segunda fonte de água que chegava à cidade era transportada de alguns quilômetros do centro – oriundas dos sítios Cigano e Zacarias. É estranho imaginar tal cenário, sabendo que a região do Catimbau possui muitos veios de água submersa e mesmo o centro da cidade possuía lençóis com boa água suficiente para abastecer todo município. A solução para a seca àquela época poderia ter sido resolvida se houvesse maior atenção aos estudos feitos sobre a região.

“Nesta época de crise, oitenta por cento dos habitantes do município de Buique bebe água estagnada […] Conheço um catingueiro, morador do lado de Ibimirim, que fez uma quase inacreditável. Um dia, ele vinha para Buique vender duas galinhas. Depois de atravessar uma região sem água, sentiu a sede apertar-lhe a garganta. Andou mais duas léguas cambaleando de sede. Depois não a suportou mais. Vendo a morte nos olhos, matou uma das galinhas e bebeu-lhe o sangue. Somente com esse recurso é que pode chegar até aqui.”. – Afitone de Sá Feitosa [coletor Estadual]

O então prefeito municipal, Félix de França Monteiro vinha há algum tempo tentando conseguir um açude para o município. Pouco depois da invasão dos flagelados, viajou para o Recife para tratar do assunto com o Governador estadual – Etelvino Lins, em busca de uma solução de urgência. A verba da prefeitura era tão curta que para o transporte os alimentos, foi necessário vender alguns quilos de charque.

Manuel Domingos Ramos – presidente da Cooperativa Agropecuária de Buíque, comovido com a situação, não escondia as lágrimas perante o sofrimento de toda aquela gente e assim, decidiu distribuir todo estoque da cooperativa.

“Tenho fome”

Amontoados às janelas e porta da cooperativa, os flagelados produziam um burburinho de lamentações, gemidos e rogos a Deus e alguns santos. Contudo, a frase mais ouvida naquele dia, saltava em coro no meio da multidão: “Tenho fome”.

Uma equipe do Diario de Pernambuco esteve na cidade para apurar a situação. Fizeram contato com Manoel Domingos que ao enxugar as lágrimas com um lenço, relatou:

“Nem 100 quantidades dessas, tanto de charque como de farinha dariam para matar a fome dos nossos conterrâneos ora avassalados por essa calamidade”.

Pouco mais de quinhentos famintos foram suficientes para esgotar as reservas de farinha e charque. Porém, a ação salvou a cidade de um iminente motim.

O número de pessoas no local após a distribuição ainda era crescente, talvez pela esperança de que chegasse mais alimento. No entanto, com as reservadas findadas, fez-se por bem fechar as portas tanto da cooperativa quanto da coletoria Estadual para evitar qualquer confusão que pudesse ocorrer no local.

Os não contemplados recorreram às residências para pedir comida, dinheiro e até mesmo trabalho. Estavam por toda parte, embaixo de árvores à espera de doações; muitos enfraquecidos pela longa caminhada que fizeram até o centro da cidade. Crianças pálidas, de ventres estufados, nuas e seminuas.

Anos se passaram e o problema com a fome e a seca continuaram, vários observadores do governo, a mando do presidente Juscelino Kubitschek, visitaram o sertão nordestino para compreender a situação e elaborar soluções que à época não foram postas em prática. A propaganda de “ações que precisam ser feitas”, porém nunca decididas, perdurou no campo teórico e muitos indivíduos morreram de fome e sede à espera de uma solução. Nas décadas seguintes, vieram novas estações chuvosas, que proporcionavam fartura temporária. Mas que logo trazia de volta, o retrato daquela seca, em verões cada vez mais severos e invernos cada vez mais curtos.

Trabalho para os flagelados

Em 1956, três anos após a invasão dos famintos em Buíque, a situação dos flagelados ainda não havia sido resolvida. O DER (Departamento de Estradas de Rodagem) ofertava emprego a cerca de 3 mil flagelados de várias regiões. Oitocentas vagas foram disponibilizadas aos buiquenses para trabalhar na construção de rodovias no interior. Providência tomada pelo então secretário de viação, Lael Sampaio – em Petrolina.

Uma nova invasão

Em 27 de janeiro 1971, uma nova invasão ocorre em Guanumby – distrito buiquense. Mais de 500 pessoas vieram das redondezas em busca de alimento e trabalho. O prefeito João Godoy de Neiva contatou via telégrafo, o Governador Nilo Coelho e a superintendência da SUDENE solicitando ajuda. A população da Sede e Guanumby contribuía com doações de roupas e alimentos aos flagelados que passaram uma semana perambulando pelas ruas daquele distrito.

Programas sociais

Amigos do Bem

Em 1993, um grupo de 20 amigos chega ao sertão nordestino com doações para os menos favorecidos. A iniciativa ganhou força e logo apareceram muitos voluntários que em alguns anos passaria a atender por volta de 60 mil pessoas. Esse grupo virou uma ong, hoje conhecida como Amigos do Bem, que possui sede em Buíque e têm ajudado muitas famílias a saírem da miséria através da educação e da autosustentabilidade.

Visita do presidente Lula

Em 2003, 80% da população do município possuía renda inferior a meio salário mínimo. 90% da população vivia da agricultura familiar e não possuíam sistemas de irrigação, dependendo exclusivamente dos períodos de chuva. Buíque era uma das cidades em situação de estado de emergência e foi contemplada com o Programa Conviver, anunciado pelo então presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva quando visitou o município. O programa era destinado aos pequenos agricultores residentes nas regiões mais secas do país que passariam a ser beneficiados com o seguro-safra, crédito fundiário e assistência técnica. 550 mil famílias foram atendidas pelo programa, alcançando 1200 municípios em Pernambuco, Paraíba, Piauí, Ceará, Sergipe, Alagoas, o norte do Espírito Santo e de Minas Gerais (Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucuri).

Três mil agricultores buiquenses foram atendidos pelo Seguro-Safra e, outro programa anunciado pelo presidente foi o Cartão Alimentação, uma das ações do Fome Zero, implantado em 19 municípios de Pernambuco. Aproximadamente de 4.500 famílias de Buíque seriam beneficiadas inicialmente com R$ 50,00, era o início do programa. Lula foi naquele momento o primeiro presidente da república a pisar em solo buiquense.

Bolsa Família

Em 2004, foi criada a Lei 10.836 ou Programa Bolsa Família, que visava a unificação do PNAA (Programa Nacional de Acesso à Alimentação), criado durante o governo Lula agregando programas do governo Fernando Henrique Cardoso, incluindo o Bolsa Escola Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e Cadastramento Único do Governo Federal. Mais de três mil famílias são atendidas em todo Brasil pelo Programa que trouxe certo alívio as condições de extrema pobreza e necessidade encontradas no passado.

Iniciativas recentes

No final de 2016, Buíque já recebia ajuda por meio de carros-pipa do exército brasileiro para o abastecimento estratégico de áreas onde a estiagem costuma ser mais severa. Em junho de 2018, a prefeitura anunciava o recebimento 7 milhões de reais para serem investidos no abastecimento; Em 2019, a Cáritas Diocesana de Pesqueira, a Fundacion Avina e Aliança Água + Acesso (Instituo Coca-Cola) se preparam para a revitalização de poços artesianos na região, objetivando o atendimento de 320 famílias através do projeto Gestão Comunitária de Sistemas de Abastecimento D’água.

Buíque é uma das cidades contempladas com as bacias do Ipanema e Moxotó. A zona do Catimbau possui água subterrânea em abundância. Ao longo da história, o município recebeu ajuda de várias instituições, com maior envolvimento governamental a partir do início dos anos 2000. Contudo, ainda há vários problemas a serem sanados. Um fator a se preocupar, envolve a perfuração de poços e a distribuição ilegal da água extraída que em certas circunstâncias, pode representar potencial risco ao meio ambiente e a saúde humana. Levando em consideração também, certas localidades, apontadas pela presença de metais pesados no subsolo.

A crise dos flagelados ficou no passado, mas tem seu devido lugar no presente, precisa ser conhecida por cada cidadão buiquense. Pois, mais que um fato histórico, serve de aprendizado para que se tenha cuidado no manejo com a água e para que haja respeito ao meio ambiente, compreendendo que o problema de uns é problema de todos.

Fontes:

Diario de Pernambuco. Assolado o município de Buique por violenta epidemia de tracoma. Recife, 24 de jan. 1953.

MORAIS, Clodomir. Milhares de flagelados invadem a cidade de Buique. Diario de Pernambuco. Recife, n.31, ano 128, p.1-12, 6 de fev. 1953.

MORAIS, Clodomir. Abandonados os campos, grupos de flagelados invadem a cidade. Diario de Pernambuco. Recife, n.32, ano 128, 7 de fev. 1953.

MORAIS, Clodomir. A seca está fulminando os habitantes de Buique. Diario de Pernambuco. Recife, n.33, ano 128, 8 de fev. 1953.

LEITE, Waldimir Maia. Coizas de Municípios. Diario de Pernambuco. p.9, Recife, 11 de fev. 1953.

PADILHA, Cleto. Flagelados em Buique. Diario de Pernambuco. p.9, Recife, 11 de fev. 1953.

Diario de Pernambuco. Três mil flagelados constroem rodovias no interior do Estado: Iniciados em Buique serviços atendendo a mais de 800 famintos. Recife, 13 de jun. 1956.

Diario de Pernambuco. Flagelados invadem pela segunda vez distrito de Guanumby: Buique. N.24, ano 146, 29 de jan. 1971.

Lula emociona família de agricultores em Buíque, Notícias terra. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI103234-EI1194,00-Lula+emociona+familia+de+agricultores+em+Buique.html. Acessado em: 22.03.2019

Amigos do Bem. Sobre nós. Disponível em: https://www.amigosdobem.org/historia-da-ong/ – Acessado em: 23.03.2019

 

Sobre o autor

Publicitário e pesquisador da história buiquense, interessado em artes plásticas, natureza e turismo de aventura.

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