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Algaroba – solução econômica ou ameaça para a caatinga?

Algaroba – solução econômica ou ameaça para a caatinga?

Quem viaja pelas estradas do agreste e sertão nordestino nos períodos de estiagem, vê emergir da paisagem seca, árvores incrivelmente verdes e espalhadas ao longo do trajeto. É provável que essas árvores sejam a algarobeira (Prosopis Juliflora). Espécie comum de ser encontrada em calçadas, separando avenidas e ruas ou adornando praças nas cidades interioranas. O que poucas pessoas sabem é que a árvore, tãl comum na paisagem dos centros urbanos nordestinos – não é brasileira. Sementes da árvore teriam sido trazidas do deserto do Piura, no Peru, sendo introduzida na região Nordeste em 1942.

Natural das regiões áridas e semiáridas das Américas do Norte e Central e, Norte da América do Sul. A árvore floresce durante quase todo o ano; é polinizada por insetos como a abelha e, seus frutos são vagens achatadas com cerca de 20 cm de comprimento e seis sementes que acabam dispersadas pelas fezes de bovinos, caprinos, equinos e ovinos.

As vagens da algaroba, quando manejadas adequadamente, servem como excelente fonte nutritiva de alimento para os animais, principalmente nos períodos de estiagem. No passado primitivo até mesmo o homem a usou como alimento nas regiões do qual se origina. Seu elevado teor de sacarose, pode chegar a 30%. A algaroba é rica em proteína e contém gordura, sais minerais, fósforo, ferro, cálcio e vitaminas B1 e B6, além de ser facilmente digerida. Moída artesanalmente, dá origem a um tipo de farinha integral; as vagens batidas e torradas são utilizadas por ruralistas para o preparo de uma bebida semelhante ao café.

No Brasil, pode ser encontrada nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Na indústria, é usada no processamento de minérios, perfuração de poços petrolíferos, fixação de cores em tecidos, fabricação de papel, no espessamento e estabilização em molhos e bebidas. Sendo usada na produção de aguardentes, licor, mel e vinho e vinagre.

Num curto espaço de tempo – 60 anos – a algarobeira era vista como a esperança de transformação das terras áridas improdutivas em áreas produtivas graças a sua fácil adaptação a altas temperaturas e solos pobres; por se tratar de uma árvore resistente e fornecimento de boa madeira para produção carvoeira e estacas para cercados, além de servir como alimento potencialmente nutritivo para os animais.

Nos anos 80, sua ocupação no semiárido abrangia por volta de 500 mil hectares, sendo 90 mil destes plantados com recursos governamentais. Vista como solução para o empobrecimento do solo, a algaroba era a aparente solução que impediria a destruição vegetal da caatinga. Por isso, foi criado um projeto de reflorestamento, porém feito com uma planta não nativa que envolveram o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), secretarias de agricultura e empresas de assistência técnica do Estadual.

Por se tratar de uma árvore invasora, seu cultivo deveria ser controlado, mas a falta de manejo e a descontrolada dispersão das sementes pelo gado, fizeram com que a árvore se espalhasse caatinga adentro, chegando a competir com outras árvores e plantas. Assim, passou a ser vista como ameaça à caatinga e à prática da agricultura familiar. É sabido que a árvore altera a química dos solos e reduz a disponibilidade de recursos hídricos.

Várias discussões foram iniciadas em torno da inserção da algaroba na região Nordeste. Há ainda aqueles que defendem sua presença e aqueles piamente contra. Talvez, essas divergências de opiniões, tenha contribuído com o pensamento de alguns sertanejos que acreditam que árvores não frutíferas não tem serventia e atrapalham o cultivo da terra.

Quem defende atesta que a árvore não ameaça outras árvores nativas, que oferece benefícios econômicos e combate a desertificação, precisa apenas ser regulamentado o controle de plantio, corte e comercialização de sua madeira e manejo adequado quanto ao fruto e o aproveitamento das sementes, do qual pode ser extraída uma importante matéria-prima da indústria alimentícia – a goma LBG e Guar – usada nas fórmulas de queijos, molhos, iogurtes e sorvetes.

Para outros, trata-se de uma planta invasora que reduz a propagação de várias árvores nativas. Porém, há um terceiro fator: a preservação nativa.

Com a ausência da preservação da vegetação nativa nas áreas de cerrado e caatinga, árvores como a algaroba conquistam mais espaço. Talvez, a algaroba se destaque mais devido ao desmatamento desenfreado que lhe dá condições de avançar por novos territórios. Assim, surge a reflexão de que pode não ser a algaroba que rouba o espaço daquelas nativas. Mas, as nativas que continuam sendo arrancadas pelo homem.

Mesmo tendo se adaptado bem ao bioma do cerrado e caatinga, por se tratar de uma árvore invasora, introduzida num bioma ao qual não pertencia. Faz-se necessário o controle da propagação desta, por via de medidas preventivas simples – evitando seu crescimento próximo a lençóis freáticos superficiais e o acesso de alguns animais às vagens, evitando que as sementes sejam espalhadas no solo pelas fezes. No entanto, é necessário o desenvolvimento de um sistema de manejo que possa aproveitar ao máximo seu valor econômico sem que haja um descontrole natural; associado a um programa de reflorestamento nas regiões degradadas – realizado com árvores nativas.

A presença da algaroba na natureza e seu potencial econômico em áreas de escassez é um tema sempre deixado para depois. Mantendo divergências entre opiniões e ignorando-se vários fatores que atravessam décadas.

Fontes:

CUNHA, Luis Henrique, SILVA, Ramonildes Alves Gomes da. A trajetória da algaroba no semiárido nordestino: dilemas políticos e científicos. Raízes, v.32, n.1, jan-jun, P. 72-95, 2012.

FABRICANTE, Juliano Ricardo. Plantas exóticas e exóticas invasoras da caatinga. Bookess. v.1, 1ª edição. P. 1-46, 2013.

PADILHA, Marcia Veronica Santos. Algaroba na alimentação humana. Portal Educação. Disponível em:  https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/nutricao/algaroba-na-alimentacao-humana/43890. Acessado em: 26/01/2019.

Sobre o autor

Publicitário e pesquisador da história buiquense, interessado em artes plásticas, natureza e turismo de aventura.

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