A luta dos índios Kapinawá

A luta dos índios Kapinawá
Crédito: Ilustração: Paulo César Barmonte

A maior das lutas indígenas atravessou vários períodos e persiste até os dias atuais. Há mais de quinhentos anos, os colonizadores portugueses adentravam o sertão pernambucano em busca de riquezas em nome da realeza. A história de Buíque é fragmentada sob pontos de vista mistos e pouco se conhece sobre a cultura e a luta dos índios que habitam a região.

A tentativa de escravizar nativos

Na Carta de Doação que D. João III encaminhou a Duarte Coelho, em 1534 – já tratava da escravidão indígena como parte do sistema de produção. A Carta formalizava a doação da Capitania de Pernambuco, devendo o donatário (o favorecido pela doação) enviar anualmente a Lisboa “24 peças” na condição de escravos. À Igreja, parceira da Coroa portuguesa, coube o papel de inserção da ideologia cristã, fazendo da fé católica um mecanismo de submissão sobre os nativos.

Os aldeamentos eram administrados pela igreja Católica através de missionários responsáveis pela catequização dos índios, com o fim de “salvar suas almas”, atraindo-os e domesticando-os para pacificá-los. Assim agiam os colonizadores que diante da resistência apelaram para a força com o uso das armas. Porém, diferente dos negros trazidos da África, houvera grande resistência.

Leis de liberdade

Os reis lusitanos (portugueses) promulgaram várias leis de liberdade voltadas para os indígenas. Estas se dirigiam a dois grupos distintos: Os que por meio da catequese aceitaram o projeto colonizador e os que resistiram à dominação, estes últimos eram chamados “Tapuias” – denominação dada pelos portugueses ao indígena dos grupos que não falavam línguas do tronco tupi e que habitavam no interior do país.

De acordo com a documentação produzida pela administração colonial, verifica-se que tais leis, na maior parte dos casos, não tinham qualquer valor em termos práticos. Nem mesmos as referidas aos grupos considerados “aliados”. Os índios foram declarados livres pela Coroa, em 30 de julho de 1609. Contudo, ficariam sob a responsabilidade dos padres Jesuítas que tinham o dever de “domesticá-los”.

Os primeiros indígenas dos Campos do Buíque

Os primeiros grupos indígenas da região foram os Cariris ou Quiriris, aldeados sob o controle inicial dos Capuchinhos franceses, depois dos Jesuítas e, por último, os Oratorianos de Felipe Néri. Os índios da época, denominados Tapuias-cariris, fizeram parte das missões em reservas de mão-de-obra para exploração das minas de exploração de Salitre (nitrato de potássio) espalhadas pela região. Ao deixar de constituir fonte de renda à Coroa por escassez de matéria-prima, as reservas de salitre (usado para fabricação de pólvora) e os grupos que nelas serviam como mão-de-obra foram deixados à sorte. Os tapuias, perderam parte de sua cultura e língua com os deslocamentos para os aldeamentos e isso os enfraquecera no que tange a identidade própria, sendo forçados a introduzir parte da cultura do branco em sua vivência.

No período do descobrimento haviam cerca de 1.273 línguas nativas. As ações da colonização fizeram 85% delas deixarem de existir. Os grupos que atualmente ocupa o território pernambucano são os Fulni-ô (Águas Belas); Xukuru (Pesqueira); Kapinawá (Buíque e Tupanatinga); Kambiwá (Inajá e Ibimirim); Pankararu (Tacaratu e Jatobá); Atikum (Carnaubeira da Penha e Salgueiro); Truká (Cabrobó e Ilha de Assunção) e Pipipã (Floresta).

A história dos Kapinawás, começa no aldeamento do Macaco que corresponde a área ribeirada dos rios Moxotó e Ipanema e de acordo com registros oficiais de 1746 é o aldeamento mais antigo da região; ano da Missão do Macaco – período em que os índios Carnijó, Xocó e Paraquió passam a atacar fazendas no entorno da ribeira do Ipanema para reivindicar terras tomadas por brancos.

Os habitantes do aldeamento Macaco

No Macaco, o primeiro e único missionário atuante foi um sacerdote do hábito de Sam Pedro – designação dada à parcela do clero da Igreja Católica Romana que desempenha atividades voltadas para o público em geral e que vive junto dos leigos, exercendo as mais variadas formas de apostolado. Porém, em 1749 já não existia representação católica no aldeamento que contava com cerca de 182 famílias.

A origem dos conflitos entre fazendeiros e indígenas geralmente se deu por conta do gado solto, visto pelos indígenas como caça fácil e proveitosa. Sempre que os indígenas caçavam o gado, os fazendeiros enviavam seus grileiros armados e o combate, comumente terminava em desvantagem para os índios.

Indígenas refugiados

Em 1760, os índios Carnijós da Vila de Águas Belas refugiaram-se no sítio do Macaco após acusação de serem responsáveis pela morte de seu diretor. Lá viviam apenas os Paraquiós e com os Carnijós uniram forças, recusando-se à junção com os Xukurus de Cimbres (Pesqueira) que serviram como soldados do governo na perseguição às “nações de corso” (nações indígenas que manifestavam resistência). Optaram então, pela luta armada contra os brancos e seus aliados indígenas.

Em 1802, uma grande seca atinge a região do Moxotó trazendo para o Sítio Macaco um novo grupo indígena vindo de Calancaló (atual Ibimirim). Assim, o aldeamento do Macaco, de 1746 a 1802 reúne três grupos indígenas.

Em 1850, período do Brasil Império, fora criada a lei de Terras [Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850]. A lei regularizava propriedades em nome de fazendeiros que acumularam riquezas e prestígio político a partir da apropriação indevida de terras indígenas. Os governos das províncias (estados), declaram extintos, os aldeamentos antigos.

A Lei que beneficiava os Fazendeiros

Em posse legal das terras, os fazendeiros invasores alegavam que a mistura de povos, tirava dos aldeados a condição de ser considerados indígenas e isso justificava a necessidade de acabar com os aldeamentos. Assim, foram desapropriados de vários trechos de terras, sendo estas comercializadas. Os aldeamentos em Pernambuco foram formalmente extintos em 27 de março de 1872.

Em 1874, casais indígenas que habitavam a área do Macaco, receberam títulos de posse de seus terrenos; o que inclui o Sítio Brejo de Fora, Julião e Lagoinha, Palmeira e Macacos, Mina Grande e Queimada Velha. Sendo alguns dos títulos oriundos de doação por recompensa participativa na Guerra contra o Paraguai, ocorrida entre 1865 e 1870. Contudo, não havia documentação dos títulos em posse dos recebedores das terras – a demarcação era sabida pelos mais velhos mediante aquilo que lhes fora passado verbalmente.

Período do Corte dos Arames

Em 1970, os índios escondiam sua identidade para proteção da perseguição sofrida até então. No fim da década de 1970, haviam 42 famílias no Sítio Mina Grande (há 18km do centro de Buíque). Na época, fazendeiros (coronéis) e seus grileiros (capangas), cercaram as terras das aldeias – impedindo a travessia dos índios em seu próprio território para outras localidades. Novamente, uniram forças para combater os limites de acesso impostos; formou-se um agrupamento de índios e juntos destruíram os cercados de várias fazendas e atearam fogo nos arames. O ato de rebeldia, como era visto pelos brancos, ficou conhecido como o “período do Corte dos Arames”.

A descoberta de uma certidão perdida

Um documento detalhado com as demarcações do território dos Macacos foi descoberto por acaso ainda no final da década de 1970; quando da construção da rodagem de Paulo Afonso – BR 110 que passa dentro das terras dos Kambiwás (etnia indígena que habita os limites dos municípios brasileiros de Inajá, Ibimirim e Floresta). Moradores de Macaco foram até a região em busca de trabalho e assim estreitaram relações com aquele povo, logo tomando conhecimento sobre um documento de doação que confere ao território do Macaco. A certidão estava em posse de um pequeno proprietário do município de Tupanatinga, há 23km de Buíque; e que foi passado por várias mãos desde 1920 até aquele momento.

Os primeiros Pajé e Cacique Kapinawá

Os conflitos entre índios e fazendeiros tornaram-se mais acirrados. A aldeia Mina grande foi palco de vários cercos e tiroteios. Os indígenas conheciam melhor o terreno e ganhavam vantagem sobre os grileiros. Por outro lado, estes andavam fortemente armados. Os anciãos buscaram ajuda de dois índios kambiwás desaldeados que viviam nas proximidades de Ibimirim. Eram Zé Índio e Pedro Manoel, conhecido por Dôca. Ambos haviam trabalhado no levantamento da aldeia Kambiwá e a eles está atribuída a introdução da prática do Toré na Mina Grande. Também trouxeram ensinamentos sobre como fortalecer a aldeia e buscar ajuda da Funai e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI – instituição católica de apoio aos povos indígenas). Zé Índio e Dôca foram os primeiros Pajé e Cacique do povo Kapinawá.

Kapinawá, os “caboclos de coragem”

O nome Kapinawá foi revelado a partir do ritual do toré, cujo significado é “Água e Caroá” – duas riquezas naturais abundantes na região. Após os conflitos de 1982 Zé Índio e Dôca, saíram da região.

As lutas continuavam e em 1983 os Kapinawás estavam sob a liderança do Cacique João Soares Monteiro. Os indígenas haviam sido proibidos de comprar alimentos na Vila do Catimbau – ordem atribuída a Zuza Tavares, chefe de grileiros. Porém, os índios não se intimidaram e avançaram contra os inimigos, forçando-os a se retirarem. A investida deu-lhes a fama de “caboclos de coragem”. No mesmo ano foi implantado o Posto Indígena Kapinawá da Mina Grande.

Em 1984, um estudo da Funai lançou a primeira proposta territorial; listando como posseiras as famílias indígenas das aldeias fora da aldeia-sede. Essas famílias buscaram seus direitos, mas somente no final da década e 1990 os verdadeiros posseiros foram retirados.

O legado de Zé Bernardo

Em 1993, o novo cacique do povo Kapinawá – José Bernardino Barbosa, o Zé Bernardo – iniciava sua busca por melhorias na qualidade de vida do povo. Suas ações foram significativas, a exemplo da conquista dum gerador para bombear água da nascente para algumas casas, o abastecimento da lavanderia comunitária, a instalação da rede elétrica, um posto de saúde, a busca por soluções na demarcação dos territórios circunvizinhos e a reestruturação do sistema educacional em parceria com caciques de várias etnias pernambucanas e a comissão de professores(as) indígenas de Pernambuco.

Neste período, identificou-se que a aldeia Malhador, era formada por famílias de várias outras aldeias: famílias vindas dos Kambiwás e Kapinawás de Riachinho, Tabuleiro, Ponta da Várzea e Pau-Ferro Grosso. Essas famílias possuíam parentescos espalhados pelas aldeias Caldeirão, Colorau, Batinga e Cumbe.

Zé Bernardo prontificou-se em notificar a Funai com um documento, citando a Área Nova. Em 2003 a Funai concluiu o relatório com levantamento das famílias.

Criação do Parque Nacional do Catimbau na visão indígena

O Parque foi criado em 2002, durante o 2º mandato de Arquimedes Guedes Valença – entre os convidados para as reuniões que visava discutir a criação do Parque, não fora incluída a participação de representantes indígenas; mas pessoas que viviam na Vila do Catimbau. Ainda assim, sabendo das reuniões, alguns indígenas fizeram-se presentes, logo discordando com diretrizes da proposta. Pois, a criação do Parque exigia a desapropriação de terras pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Além disso, a ONG Amigos do Bem tentava negociar com a comunidade a saída das famílias das aldeias que deveriam ser transferidas para uma Vila construída pela entidade. Contudo, o Cacique José Bernardo e a liderança da aldeia do Malhador não concordaram.

Os Kapinawás solicitaram a presença do antropólogo José Augusto Laranjeiras; do advogado do Cimi – Sandro Calheiro Lobo e da Socióloga do Centro Luiz Freire – Heloisa Eneida que explanaram sobre os direitos e deveres indígenas. Posteriormente, numa audiência com o superintendente do Ibama, foi esclarecido que nenhuma família seria retirada de suas terras e a partir daquele momento, qualquer reunião com a instituição deveria ocorrer dentro da aldeia.

Em 2007, o Instituto Chico Mendes de Conservação (ICMBio) passou a gerir o Parque. Pouco tempo adiante, as famílias indígenas sentiram-se ameaçadas diante da notícia de que uma pousada seria instalada nas dependências da casa grande – Sede duma fazenda localizada em território Kapinawá. Prontamente, várias comunidades na presença do Cacique Zé Bernardo, iniciaram na madrugada de 01 de agosto de 2011, a retomada da área que após esse episódio permitiu que as famílias expulsas retornassem às suas terras. Atualmente, a casa grande é usada como espaço comunitário: “Espaço Sagrado do Anjuká” – funcionando como escola, além de comportar o museu Kapinawá.

Subsistência dos Kapinawás

As aldeias que constitui a etnia Kapinawá vivem da agricultura individual, ou seja, cada familia colhe o que planta. Os principais cultivos são a mandioca, o milho, o feijão e o cajú. As iguarias tradicionais são o fubá, o angu, o beiju e a tapioca. Além disso, criam animais como gado, caprinos e aves. alguns ainda caçam na caatinga.

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A história desse povo está enraizada no amor à própria terra. Uma história de resistência, de sacrifícios e conquistas. Algumas lutas prevalecem e muito há o que ser recuperado diante dos abusos sofridos ao longo dos séculos. Mas a força e a união desse povo é que mantém acesa a chama que aviva a memória dos antepassados e o desejo de um futuro melhor para todos.


Fontes:

Professoras e professores Kapinawá. Kapinawá, territórios, memórias e saberes, 2016.

Buíque: Uma história preservada | Virgínia Maria Almoêdo de Assis e Vera Lúcia Costa Acioly (2004).

Sobre o autor

Publicitário, fascinado por ecoturismo, turismo de aventura, natureza, música e pintura.

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